Biosemiótica: Thomas A. Sebeok leitor de Jakob von Uexküll e Charles Sanders Peirce

          «Não há uma via rápida filosófica na ciência, com placas (de trânsito) epistemológicas. Não, estamos numa selva, e encontramos nosso caminho por tentativa e erro, construindo nossas estradas atrás de nós conforme prosseguimos. De fato, não encontramos placas na encruzilhada, porém nossos próprios escoteiros as erguem, para ajudar os outros»[1]

Max Born, 1943

          Procuramos reconstruir o percurso que eleva a biosemiótica ao âmbito de uma ciência com a finalidade de «explicar o uso dos processos do signo e as relações entre signos, tanto entre quanto dentro dos organismos».[2] A biosemiótica busca engendrar um vocabulário útil e uma estrutura conceitual para apreender os diversos níveis que os processos de signos como signos aparecem na natureza. Enquanto a física nos diz que o átomo ou uma molécula pode ser autonomizada e estudada sem relação com qualquer outra substância do ambiente, sabemos que, de fato, uma molécula de odor está para, ou seja, significa a existência de uma substância que pode ser um alimento, um veneno, etc.

          Apesar das relações semióticas serem onipresentes no mundo biológico, a espécie Homo sapiens é dotada de uma habilidade cognitiva única: a linguagem nos leva a um cenário de abstrações, impossibilidades e contradições, que funda um horizonte totalmente virtual e auto-reflexivo. Cabe-nos ter em mente, que a grande contribuição da biosemiótica será dada no sentido de apreender conceitualmente quais as possibilidades biológicas e semióticas de tal capacidade humana que evoluiu a partir de condições adversas do meio e do próprio cérebro humano. Entender a conexão que o mecanismo da linguagem tem com os processos semióticos onipresentes em todas as espécies da natureza, é o fundamento da biosemiótica. Em outras palavras: «Biologicamente, somos apenas mais um símio. Mentalmente, somos um novo filo de organismos. Nesses dois fatos aparentemente incomensuráveis repousa um problema que deve ser resolvido antes de termos uma explicação adequada do que significa ser humano.»[3]

          Como procuraremos mostrar, a questão da significação é complexa, porque cada organismo responde da sua própria maneira ao mundo que o cerca. O primeiro impasse é encontrado neste ponto: deve-se prosseguir o estudo da significação no âmbito de um indivíduo que gera o sistema de conhecimento e respostas ao meio, ou, por outro lado, a subjetividade deve ser posta de lado em nome da objetividade da ciência?

Unindo a Ciência do Signo com a Ciência da Vida: Thomas A. Sebeok

          A característica fundamental e sui generis da pesquisa de Thomas A. Sebeok é a busca da integração entre vários âmbitos de pesquisas até então independentes: processamento da informação, comunicação intercelular, psicologia comportamental, neurologia, ecologia, etologia, etc. Essa interdisciplinaridade formou o núcleo para se compreender a biosemiótica, que tem no seu escopo científico as áreas de zoosemiótica, endosemiótica, fitosemiótica, etc. Nesse sentido, a semiótica está para além do horizonte linguístico imprimido por Ferdinand de Saussure: “science qui étude la vie des signes au sein de la vie sociale[4], para englobar questões significantes no âmbito do estudo dos animais. Em vez de somente explicar e descrever os signos, o que se busca, também, é perguntar pela condição de possibilidade da significação, numa perspectiva quase kantiana.

          Um conceito fundamental que permeará a biosemiótica é o de modelo. A capacidade de modelar o mundo a sua volta e sofrer reação desse mundo, é observado em todas as espécies animais. O modelo tem algo do a priori kantiano e se dá através de relações entre signos. Nesse prisma a linguagem surge como um dispositivo modelador, só encontrada na espécie Homo sapiens. Sebeok distingue entre a linguagem, que possibilitou a criação de mundos internos nas espécies hominídeas e a fala, esta muito mais recente do que aquela na evolução da espécie, constituindo um modelo de segunda ordem surgida de uma exaptação[5].

          A capacidade de Sebeok em congregar programas teóricos distintos é o grande legado de seu vasto trabalho. A semiótica, como é pensada pelo professor estadunidense, favorece a descoberta de novas perspectivas, conexões interdisciplinares e práticas interpretativas, novos horizontes cognitivos e linguagens que interagem continuamente. Por exemplo, seus contatos com Juri Lotman, semioticista russo ligado a famosa Escola de Tartu, no auge da Guerra Fria, marcou de forma decisiva a união de paradigmas conceituais sensivelmente distintos. Lotman atribuiu a Sebeok a tarefa da tradução de seu livro, On the Semiosphere, para o Ocidente. Para Lotman, a biosfera é o reino onde os seres vivos interagem, é o palco autopoiético de onde nascem os “sistemas modeladores” como a linguagem, a cultura, etc.

          A questão fundamental subjacente a obra de Sebeok é: como se organizam e operam os sistemas de signos nos animais, e como a espécie Homo sapiens se distingue de todos os outros animais, mesmo que apresente características de continuidade com os sistemas desses. A dimensão da pergunta é tão abrangente que envolve questões do tipo: Como a linguagem se desenvolveu? Como os sistemas de signos se originaram? Como os sistemas biológicos se originaram?

          Além da influência recebida da obra de Charles Morris e Roman Jakobson veremos como, em busca de um sincretismo entre os estudos sobre os símbolos e a significação de um lado, e as ciências da vida, por outro, vão levar Sebeok a uma reinterpretação e uso das teorias do filósofo e cientista norte-americano Charles S. Peirce (1839-1914) e do biólogo da Estônia, Jakob von Uexküll (1864-1944). A semiótica precisará da biologia e vice-versa, porque: «deve-se mostrar como uma semiótica fenomenológica evolui da biosemiótica, e como as relações basilares da biosemiótica emergem de seus – termodinâmicos, morfodinâmicos (por exemplo: auto-organização) e teleodinâmicos (por exemplo: funcional) níveis de organização constitutivos.»[6]

A Ciência da Vida: Jakob von Uexküll

          A obra de Jakob von Uexküll, desde sua primeira publicação, em 1909, Umwelt und Innenwelt der Tiere, até sua morte, em 1944, é permeada pela observação e busca de discernimento dos mundos fenomenais, ou universos subjetivos dos animais. Através da observação precisa das relações organismo-mundo, Uexküll pôde contrariar a interpretação mecanicista da biologia de sua época, que basicamente pensava o animal como um sistema maquínico que se dava num processo de inputs/outputs.

          Em poucas palavras, as teorias do biólogo, mostram a conexão totalmente naturalística entre o mundo humano dos signos e o mundo animal dos signos. Pela inserção do termo Umwelt (numa má tradução: meio-ambiente), Uexküll pretendia abarcar as relações entre a unidade interativa de um organismo e, ao mesmo tempo, o mundo que o envolve. Outro termo que surge dos estudos práticos de Uexküll sobre o sistema de feedback nos animais é o de Funktionkreis (círculo funcional), conceito fundamental para o ulterior desenvolvimento da Cibernética, da Teoria dos Sistemas de Ludwig von Bertalanffy, das Neurociências, etc.

          A tensão existente na biologia, que opunha uma visão teleológica, herdeira de Aristóteles, a uma com teor mecanicista, herdeira de Newton e Descartes, é o grande impasse teórico que chega até o então jovem estudante de biologia, Jakob von Uexküll. Kant representa o entrelaçamento teórico entre essas duas visões, daí ter influenciado muito a obra de Uexküll. De fato, o debate entre uma teleologia e o mecanicismo vai opor Karl Ernst von Baer e Charles Darwin, respectivamente. Baer estudou as formas embrionárias e viu que as diferenciações ocorriam conforme a um determinado plano. Por outro lado, Darwin, com a noção de seleção natural, se alinha entre os mecanicistas, porque a vida seria uma acidental continuidade de algumas espécies em detrimento a outras. Cenário este em que não se pode vislumbrar qualquer plano pré-configurado.

          Ao longo de sua obra, Uexküll dá cada vez mais importância ao processo de significação. Este processo, porém, faz referência a um plano que a vida parece obedecer. Leitor atento de Kant, Uexküll espalha os a priori da razão humana para todo o reino animal. Em Kant é vedado o acesso a uma realidade subjacente às percepções subjetivas, a coisa-em-si permanece incognoscível. Uexküll levará esse insight fundamental para o estudo das relações animal e meio-ambiente. O que está em causa é que só há acesso ao mundo através da percepção.

          Em seu criticismo contra as tendências mecanicistas da biologia de sua época, Uexküll cunhou o conceito de arquitetura centrífuga do organismo. Enquanto qualquer máquina necessita de uma força externa que atue internamente num tipo de arquitetura centrípeta, os organismos agem de dentro para fora, num tipo de arquitetura centrífuga. A morfologia de cada organismo é o centro de comando que auto-regula sua vida, o que não impede que agentes externos interfiram no processo. «A força de dentro […] é contrabalançada pelos fatores ambientais»[7]

          Essa teoria de arquitetura centrífuga revela que Uexküll recusa-se a aceitar que os seres vivos respondem a sistemas de leis físicas e macânicas de forma passiva. Os organismos vivos são dotados de poder de engendrarem suas próprias leis e determinações, por regras autônomas. Em vez de um mundo de leis físicas naturais eternas, Uexküll faz-nos ver que o sujeito, humano e animal, é, de fato, o legislador do seu mundo. Para além das leis da física que regulam o mundo “lá fora” deve-se relevar as leis subjetivas de cada organismo que seguem um plano. E é precisamente a junção desses dois domínios que Uexküll denomina de Umwelt.

          Uexküll recebe com desconfiança a teoria da evolução das espécies de Charles Darwin. Com várias referências à música em sua obra, Uexküll pensou numa organização harmônica do mundo, num plano (Planmässigkeit). Cada organismo seria um tom que ecoa sobre o ambiente e os outros organismos. Daí Uexküll “descobrir” que a geração e a comunicação de signos, no mundo animal, pode ocorrer numa base puramente instintivas. Apesar de Uexküll apresentar certa resistência em face às teorias de Darwin, uma teoria da evolução parecia ser fundamental para a compreensão do conceito de Umwelt. Em vez da teoria da evolução de Darwin, Uexküll preferiu atribuir um plano autônomo à Natureza, que, ao mesmo tempo, garantisse a constituição única de cada organismo. Exatamente a esse plano da natureza que Sebeok buscará explicações sofisticadas em seu estudo interdisciplinar da biosemiótica, que estabelece pontes entre os estudos da significação e a biologia: um «projeto que tem como objetivo nada menos que uma explicação de como a experiência subjetiva do organismo, entendido diferentemente pela constituição biológica particular de cada espécie – jogará um papel causal na atual co-organização da natureza».[8]

          Ao defender o microcósmos que cada organismo detém, Uexküll está contrariando a antiga interpretação mecânica que tomava um ser vivo como um aparato técnico com fins de se perpetuar. Em vez disso, Uexküll entende os organismos como a reunião de um aparato sensitivo e um motor, que a todo momento percebe, ao mesmo tempo que age no mundo. Estes “dois mundos” que qualquer organismo está imerso, que é o mesmo mundo porém ora como percebido (Merken) ora como aquele que o organismo age sobre (Wirken), é o que Uexküll chamará Umwelt.

          Analisando a noção de Umwelt mais detidamente, vemos que o conceito já aparece no título de uma monografia de Uexküll datada de 1909, Umwelt und Innenwelt der Tiere (aproximadamente: O meio-ambiente e o mundo interno dos animais), em que podemos notar que a noção de Umwelt fazia menção a uma série de relações causais biológicas entre meio e agente, relações estas não redutíveis nem à organização interna do sujeito nem à organização do meio, porém sempre a um produto da interação entre ambos. Além disso, Uexküll argumenta pela possibilidade de conhecimento científico das experiências subjetivas. Essa monografia de Uexküll não obteve notoriedade entre a comunidade científica da época, principalmente por rechaçar os modelos mecanicistas herdeiros da tradição cartesiana. Com a publicação, em 1920, de Theoretische Biologie Uexküll já alcança um acabamento conceitual vasto aos seus estudos empíricos com cães, polvos, anêmonas, etc, empreendidos durante longos anos.

          Na obra Theoretische Biologie, Uexküll argumenta pela reintrodução da subjetividade do organismo autônomo como o foco da biologia e seu objeto. Ao se perguntar pela constituição de um animal, Uexküll vê que é justamente no meio de inserção de tal animal que estão contidas as respostas. Tal compreensão permitirá a semioticistas como Jesper Hoffmeyer concluirem que: «a experiência subjetiva dos organismos […] (é) um princípio organizacional no progressivo co-desenvolvimento, co-evolução e co-manutenção de sistemas vivos interdependentes: uma máquina geradora e recursiva de ambas, estabilidade evolucionária e mudança.»[9]

          Ao analisar o passado da ciência moderna, Uexküll constata no mínimo três paradigmas bem definidos: o primeiro o de Kepler, que intuiu uma harmonia cósmica. Em segundo lugar, Newton, que legou suas leis que tornam o universo um sistema mecânico. Em terceiro lugar, Darwin, que nos legou a seleção natural que, aos olhos de Uexküll é um mecanismo aleatório, acidental, de um mundo onde não há planos. Sobre o darwinismo, Uexküll  esboça uma crítica dupla: a teoria de Darwin atribui um papel fundamental à casualidade, a aleatoriedade da história e, em segundo lugar, se mantém extremamente materialista ao atribuir somente aos genes herdados as características da espécie futura. Os seja, as teorias de Darwin são, ao mesmo tempo: «a liberdade caótica e o materialismo determinista»[10], o que soa como um disparate a Uexküll.

          Uexküll pensa em regras e planos que os organismos de alguma forma obedecem, porém não num sentido teleológico. Para o biólogo, a teleologia fazia sentido num horizonte teórico em que se buscava atingir a coisa-em-si por trás das contingências individuais de cada organismo. Com efeito, a noção de Umwelt busca dar conta, num sentido holístico, das relações entre o organismo e o mundo. Podemos pensar, aqui, na noção de ser-no-mundo de Heidegger como um conceito análogo. Em Merleau-Ponty há vários conceitos irmanados ao Umwelt de Uexküll: estrutura do comportamento, carne, etc.

          Um exemplo que Uexküll nos fornece para intuirmos a complexidade dos Umwelts é o de uma simples flor. Suas funções na natureza dependem do tipo de animal que interage diretamente com ela. Para um ser humano a flor pode ser um adorno. Para um inseto, fonte de água e néctar, e assim por diante. Cada organismo configura um novo mundo, uma nova “bolha” que delimita suas possibilidades no mundo. Essa bolha impede o olhar direto do cientista humano sobre o animal, daí a necessidade de se observar o comportamento do animal dentro de sua bolha.

          Sobre a comparação com a bolha de sabão: «O espaço peculiar a cada animal, em qualquer lugar que ele possa estar, pode ser comparado a uma bolha de sabão [Seifenblase] que envolve completamente a criatura numa distância maior ou menor. Essa bolha de sabão estendida, constitui o limite do que é finito para o animal, e, por isso, é o limite do seu mundo; o que há para além da bolha está escondido no infinito»[11]. O que está dentro dos limites da bolha é possível de significação sobre, o que está fora é insignificante, permanece velado.

          Um exemplo do esquema que o Umwelt configura, que encontramos em Uexküll, são suas observações de um carrapato (Ixodus rhitinis) que se posiciona numa vegetação e simplesmente espera pelo momento em que percebe o ácido butírico, presente no suor dos mamíferos, momento em que o carrapato salta em busca de se alimentar e finalmente se reproduzir. A “espera” do fator significante (a presença do ácido butírico) que dispara sua ação, pode durar até 18 anos. Nesse intervalo, cego e surdo, o carrapato não considera significantes quase nenhum fator ambiental que o rodeia. Vemos aqui, surpreendentemente, que a rede que interliga os Umwelts não envolvem propriamente indivíduos e sim relações de significações elementares. O carrapato não percebe o mamífero por inteiro, percebe a substância química. E cada etapa desse processo: percepção do ácido butírico, salto, alimentação, reprodução e morte, só ocorrem sequencialmente se a etapa anterior for bem sucedida. A seguir retomaremos esse exemplo à luz do conceito de Funktionkreis.

          Ao lado do conceito de Umwelt, também vemos em Uexküll a comparação da vida com a harmonia musical. A célula teria um tom que possibilita a comunicação intracelular através de ritmos e melodias. Assim também os órgãos que uniformizam as melodias celulares. O organismo seria uma permanente sinfonia de melodias de órgãos e ritmos celulares. O próximo estágio seria a de uma harmonia entre dois ou mais organismos, como se pode ver, por exemplo, numa colmeia. Em último lugar está a composição musical de toda a natureza, que teria uma harmonia interna. Daí vemos a fundamentação de um determinado plano da natureza.

          Perceber por um lado e agir no mundo por outro, como característica fundamental de todos os animais, levou Uexküll a descrição de círculos funcionais (Funktionkreis) que tinham como base uma relação entre signos recebidos pelo organismo e signos enviados por este, através de sua ação sobre o mundo. Segundo Uexküll esse esquema deve ajudar a compreender todas as capacidades do sistema nervoso central e o comportamento instintivo dos animais. Esse esquema também cumpre a função de um modelo, que, como vimos, é central para o atual estágio da biosemiótica:

Funktionkreis, Theoretische Biologie, 1920 (Neuer Kreis: feedback, mundo interno)

(Merkzeichen, Wirkzeichen, Merkorgane, Wirkorgane, Merkmal, Wirkmal)

          Vemos emergir dessa teoria um modelo intersubjetivo da natureza. Perguntar pelo mundo biológico é considerar as complexas relações entre os Umwelts dos animais. Ainda mais, em Uexküll, um organismo que percebe e age no mundo necessita de um “dueto”, de outro ser vivo que o complemente. Por isso o interesse em significação ser fundamental nas obras tardias de Uexküll, o que o coloca como o principal arquiteto do que é hoje conhecido como biosemiótica.

          A biologia assume então a função de descrever como o significado é gerado através de interações entre os diversos animais e seus respectivos mundos. Nesse ponto cabe a seguinte observação: Uexküll conheceu pessoalmente Ernst Cassirer, que pode ter exercido considerável influência sobre a questão dos signos. Os organismos são sistemas interpretantes e geradores de signos e a natureza revela a intrincada rede de relações que daí surgem. No exemplo do carrapato, o mamífero aparece como um signo, que é interpretado, resultando de uma ação específica. Os tons de ambos os animais se complementam, gerando significação num dueto. Podemos vislumbrar a ontologia que se cria como pano de fundo a todas essas análises.

          Um exemplo interessantíssimo para concluir nossa aproximação a Uexküll. Num livro tardio chamado Bedeutungslehre, Uexküll toma em consideração uma aranha que está fazendo sua teia. De alguma forma, diz Uexküll, a aranha prevê o voo de algo, e, como algo que voa ela também, constrói seu aparato de caça. Captando de alguma forma a melodia do voo, a aranha antecipa-o. A aranha adaptou-se, instintivamente, a um signo presente em seu Umwelt e, por isso, é bem-sucedida na previsão do voo. A estrutura do corpo da aranha é capaz de predizer a aparição de um significante. Há algum tipo de intencionalidade em ação no animal? Sem dúvida, no mínimo ao nível do movimento do corpo. Nesse cenário, as substâncias inorgânicas também são relevadas na constituição de cada Umwelt, não somente materialmente falando, mas, também, como forças: a temperatura, barulhos, etc.

A Ciência do Signo: Charles Sanders Peirce

          Charles Sanders Peirce foi um químico, astrônomo, matemático e lógico que influenciou decisivamente a história da ciência contemporânea. As relações de “signos” para Peierce são: «uma espécie de gênero alargado de relações as quais a potencialidade se torna atualizada, e esta interage com outras “atualidades” da mesma forma, de forma que um padrão é gerado.»[12] Peirce buscou incessantemente assegurar uma teoria da ciência e uma teoria da racionalidade, daí a necessidade de uma teoria dos signos, com primazia sobre qualquer estabelecimento de uma lógica formal. Peirce legou-nos uma obra imensa, com mais de 80.000 páginas escritas, em vários domínios do conhecimento. O que levaremos a cabo aqui, como é óbvio, é apenas um recorte teórico muito esquemático para os fins que nos propusemos.

          Uma das observações fundamentais para a compreensão da semiótica é, e Peirce viu isso com muita lucidez, que a transmissão dos signos é o processo final da significação, ou seja, o processo de emergência do signo só faz sentido porque há a comunicação destes signos engendrados.

          A primeira trinca de conceitos de Peirce que devemos ter em conta, e que foram utilizados ostensivamente por Sebeok são: ícone, index e símbolo. Peirce os circunscreveu dentro das relações entre a significação, de um lado, e aquelas do objeto representado, por outro. Mais especificamente: «ícones são mediados por uma similaridade entre signo e objeto, índices são mediados por conexões físicas ou temporais entre signo e objeto, e símbolos são mediados por alguma conexão formal ou convencional não-correspondentes a quaisquer características físicas do signo ou do objeto»[13]

          Nesse sentido, podemos interpretar os conceitos de primeiridade (firstness), segundidade (secondness) e terceiridade (thirdness) de Peirce, correlativos aos conceitos de ícone, index e símbolo, respectivamente, como a possibilidade, a existência atualizada e a lei. Em outras palavras, o ícone e a primeiridade fazem referência a uma possível similaridade na relação signo-objeto representado, por exemplo, um quadro de natureza morta. Em segundo lugar, o index e a segundidade fazem referência a uma correlação ou contiguidade entre a díade signo-objeto representado, por exemplo, um termômetro ou os ponteiros de um relógio. Em terceiro lugar, o símbolo e a terceiridade fazem referência a uma lei, uma causalidade evidente ou uma convenção estabelecida entre a díade signo-objeto representado, por exemplo, um anel de casamento.

          Podemos acompanhar nessa citação, de um autor relacionado com a fitosemiótica chamado Martin Krampen, a influência das teorias de Peirce: «Há três níveis de ciclos significantes correspondendo à predominância da indexicalidade, iconicidade, e simbolicidade, cada processo superior incluindo também o inferior. Indexicalidade, num nível vegetativo, corresponde às sensações e regulações, num ciclo de feedback, de estimulação significante diretamente contígua à forma da planta. A iconicidade, num nível animal, é produzida pelo ciclo funcional, com atividades receptoras e efectoras representando, num sistema nervoso, a “imagem” dos objetos. A simbolicidade, a um nível humano, é produzida pela percepção e ação na sociedade humana.»[14]

          É fundamental, ao nível de uma teoria da significação, compreender os processos de transição entre a primeiridade, que configura uma rede de sensações e percepções de um indivíduo em forma bruta, ou seja, como possibilidades incertas, para a organização alcançada na segundidade, que informa as sensações e percepções com um conteúdo determinado, por exemplo, o ter frio, fome, etc. E, num outro nível, o que eram sensações e percepções podem ser interpretadas numa rede de relações, como signos convencionais, por exemplo, as partituras musicais, as fórmulas matemáticas, etc. Assim, a terceiridade mostra as convenções acessíveis pelos organismos vivos numa certa compreensão simbólica. A fundação desse terceiro nível, apenas encontrado nos seres humanos, levou Sebeok à pesquisa sobre como isso foi possível, já que o homem parece ter um vínculo com os outros animais. Daí Sebeok ter-se voltado para a biologia e para os mecanismos do comportamento dos sinais nos animais.

BIBLIOGRAFIA

FAVAREAU, Donald. Essential Reading in Biosemiotics, Vol. 3 – Anthology and Commentary, Springer Dordrecht Heidelberg, 2010.

BUCHANAN, Brett. Onto-Ethologies – The Animal Environments of Uexküll, Heidegger, Merleau-Ponty and Deleuze, Suny Press, 2008.

UEXKÜLL, J. von (1920/28): Theoretische Biologie. 1. Aufl. Berlin, Gbr. Paetel/ 2. gänzl. neu bearb. Aufl. Berlin: J. Springer.

_____________ Umwelt und Innenwelt der Tiere, 1909, Berlin: J. Springer.

_____________ Bedeutungslehre. Leibzig: Verlag von J. A. Barth, 1940. (“The theory

of meaning,” Semiotica 42, 1 (1982))

_____________ Streifzüge durch die Umwelten von Tieren und Menschen (with Georg

Kriszat). Geibungsyoin Verlag, 1934.


[1] Essential Reading in Biosemiotics, p. 4.

[2] Idem Ibidem, p. V.

[3] Idem Ibidem, p. 555.

[4] Ferdinand de Sausurre, Cours de linguistique générale, p. 33.

[5] “Exaptação é uma adaptação biológica que não evoluiu dirigida principalmente por pressões seletivas relacionadas à sua função atual. Em vez disso evoluiu por pressões seletivas diferentes relacionadas a uma adaptação para outras funções, até que eventualmente chegou a um estado ou construção em que veio a ser utilizada para uma nova função.”

[6] Essential Reading in Biosemiotics, p. 546.

[7] Onto-Ethologies, The Animal Environments of Uexküll, Heidegger, Merleau-Ponty and Deleuze, p.14.

[8] Essential Reading in Biosemiotics, p. 43.

[9] Idem Ibidem, p. 104.

[10] Onto-Ethologies, The Animal Environments of Uexküll, Heidegger, Merleau-Ponty and Deleuze, p.19.

[11] Streifzüge durch die Umwelten von Tieren und Menschen, p. 5.

[12] Essential Reading in Biosemiotics, p. 40.

[13] Idem Ibidem, p. 549.

[14] Idem Ibidem, p. 257.

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