Minha ventania pessoal submetida ao escrutínio do outro

Considerando ter recebido há algum tempo uma carta de um amigo que gentilmente pretendeu destacar incertas características pessoais minhas as quais não estou totalmente de acordo, retomo alguns excertos da supracitada para tentar equalizar as interpretações que minha psicologia, somente cara a mim, assume quando encontra a natureza totalmente selvagem de um outrém.

A amizade, mesmo a mais interessante, frequentemente, consegue tatear somente os aspectos escusos e altamente fluidos da interioridade humana. A primeira frase que destacaria: “E que sensação __ deliciosa como um lago espelhado ao sol espalhado __ sentir-se gotícula imersa na água surda de outro alguém”. Há, indiscutivelmente, certo conseguimento literário nessa frase que pode chocar, à primeira vista, um leitor desapercebido. Que minha psicologia seja comparada à água, isso sim eu considero uma grande exaltação, que me coloca à altura dos sábios Taoístas, algo que, de fato, eu assumo em mim. Mas o que me incomoda, dado que a frase é remetida primeiramente para mim, é o adjetivo surda. Eu que permaneço em contínua luta por mais voz, que procuro uma enxertia desenfreada de todo o escopo plural de modos de seres humanos, como posso ser surdo? Surdo remete a um não-vozeado, ao que não vê possibilidade de um ruído captável. Porém, o que mais quero é fagocitar os ruídos estridentes, e, por conseguinte, atacar violentamente, com minhas profecias, os tímpanos alheios. Há algo nessa caracterização que não capta o sentido ambivalente da minha disposição no mundo, assim limitando-me a um mero incapacitado de ouvir. Talvez possa remeter para uma certa impermeabilidade, que cada dia reforço, entre a minha idiossincrasia e a dos outros, ou seja, para a minha incapacidade inerente de absorver as mentes comuns ou mesmo de aturá-las – pode ser. Aquela metáfora, penso, não dá conta da riqueza da minha disposição no mundo, do âmbito das minhas possibilidades.

Continuando na embaraçosa caracterização de mim, a carta diz: “Este alguém Tu, que andava por aí de bermuda e falando alto, que tinha umas dúvidas importantes e gostava de dar umas respostas pra outras tantas, que cantava brega sem timidez, que era tímido no egoísmo”. É com um sobressalto que me vejo enfurecido com essas linhas! Principalmente a parte que atenta contra o meu cantar, censurando claramente minha interpretação, – Por que deveria eu ficar tímido? – em música que, por vezes, eu proferia tomado por epifanias genuínas.  A música dá-me asas a distintos modos artísticos das minhas concepções de mundo. Ora pode ser uma situação propícia para tornar memorável uma parcela significativa do meu presente fugaz. Ora pode servir aos desígnios tirânicos de uma certa razão que trabalha com fins de totalizar, na consciência, a amplidão dos vocabulários e melodias apresentados pelas diversas músicas. Mas, sem dúvida, é a possibilidade, inerente ao cantar, de propiciar um palco inelutável para o enfrentamento dos outros que nos rodeam. A música soa incontornável, é totalmente justificada no seu impulso contrariador do tempo, instaura uma norma entre a conduta humana, num determinado momento, que é inquebrantável. A música é a possibilidade real de subsumir os outros, de navegar sozinho nos recônditos mais obscuros do cérebro e é só secundário a possibilidade dessas ondas harmônicas alcançarem outro psicologismo qualquer.

Repito, consumido pelo fogo: Por que eu deveria me envergonhar de cantar? Tal censura implícita, que fui com certeza vítima, uma verdadeira violação da liberdade de expressão, é digna de certa repulsa genética. Devo alertar tal “amigo” que qualquer metáfora prosaica será rebatida com a fúria de um vendaval. Não permito que a pulsão exótica da minha vida seja encapsulada por vãs metáfora alheias, que pretendem subsumir minha expressão, destruindo minha audácia e, sem dúvida, empobrecendo a raça humana no seu todo.

Um comentário em “Minha ventania pessoal submetida ao escrutínio do outro

  1. carlos emilio 16/03/2011 — 15:23

    o que eu vejo aqui é uma simples briga entre dois marmanjos. de um lado, um pirú que não consegue perceber os erros dele mesmo e julga o outro. do outro, um gajo bonitinho com problemas mentais obtidos após um longo uso abusivo de entorpecentes e literatura.
    a surdez que o primeiro se referiu, parece-me ser a barreira -quase que intransponível- que separa o EU dos outros. ela não impede que seja proferido ruídos ou tons ou música. penso que a surdez é uma negação do que se ouve, na real.
    e, quanto ao brega, eu acho digno esse teu pití, Rafael. a Arte, como um todo, só tem sentido para quem consegue captar a essência (quase que ejaculada pelo espírito santo, quando tem como fonte o brega), visto que mais idiossincrática que as palavras, a Música é a exortação da essência (a.k.a. alma).

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