Ricouer – Metáfora, Imaginação, Intersubjetividade

A teoria da metáfora desloca o lugar tradicional que via na percepção as origens das imagens e da imaginação, para a linguagem. A linguagem é o locus da inovação semântica engendrada pela metáfora. Ricouer procura desprender-se da imagem como um apêndice e sombra da percepção. Percebemos a revolução copernicana do pensamento de Ricouer neste ponto. Em vez da percepção fornecer os esquemas da imaginação é a linguagem, através dos non-senses introduzidos pela metáfora, que assumirá esse papel. Daí as imagens serem faladas anteriormente a serem de fato vistas. Vemos a renúncia da teoria do teatro mental, onde veríamos as cenas das imagens como espectadores passivos. Ricouer está mesmo combatendo a teoria Aristótelico-tomista da percepção, e com isso as próprias ontologias vinculadas a ela.

Avançando no texto, Ricouer nos aponta que a imagem engendrada na linguagem poética é, por excelência, o paradigma do que anteriormente chamamos revolução copernicana. É no conceito de ressonância que Ricouer vai fundamentar a possibilidade da linguagem fornecer as imagens pela metáfora. A metáfora seria um “uso desviante dos predicados”, uma “impertinência predicativa” que proporciona um choque semântico. Nesse campo da nova significação é onde a imaginação opera. As novas significações fazem ver, principalmente, relações de semelhança. A metáfora aproxima e afasta um sentido de outro, provocando com isso o choque. A imaginação é esse entrever de novas possibilidades lógicas do discurso, até então veladas, é, sobretudo uma reestrutração de campos semânticos. No proceder por semelhança da metáfora, por exemplo, em: ver a lua como um farol, revela-se o esquematismo montado pela imaginação da significação que brota.

Na própria experiência da leitura somos remetidos às imagens evocadas pelo texto, podemos vislumbrar o que Ricouer nomeia ressonância, eco ou reverberação. Ao tentar dar conta da interrupção e resignificação linguística operada pela metáfora, a imaginação faz ver experiências passadas, memórias perdidas, etc. Essas imagens suspendem a experiência quotidiana, apontam para o irreal, para a ficção e para o que será chamada de utopia. Somente ao pairar acima do mundo habitual é que atingimos novas possibilidades, ideias e valores.

Porém dizer que a metáfora e, por sua vez, a imaginação remetem para um mundo outro, pode levar à conclusão da falta de referencial dessa linguagem. Ricouer sublinha esse problema, porém afirma que há uma referencia de segundo grau, que será mais primordial. Em outras palavras, remodelando nosso campo semântico e nos desenraizando de nossas práticas linguísticas habituais, a metáfora do discurso poético desloca-nos para a pura facticidade ontológica de nossa pertença ao mundo. A ficção aponta em duas direções então: para algures, e para a própria realidade redescrita. O modelo científico, pensa Ricouer, seria paralelo às ficções do discurso poético, no seu caráter heurístico de abrir novas interpretações do mundo. Ricouer afirma existir um paradoxo na ficção, que, ao mesmo tempo em que anula a percepção do mundo condiciona um aumento da nossa visão das coisas. Decorre daí que o discurso simbólico ou ficcional têm sempre pretensões de refazer a realidade.

A humanidade tem buscado entender o campo prático, principalmente, redescrevendo linguisticamente esse campo. Aristóteles já mencionava a função mimética da poiésis, que na Grécia antiga conotava criação de um muthos que lhe é próprio. A poesia cria o enredo que tenta imitar, mimetizar a ação. Aristóteles mesmo já vê a articulação entre mimésis e mutos, ficção e redescrição, ação e texto.

Na história humana vê-se uma dialética implícita na ficção e na redescrição, na ação e no texto que a apreende e a re-significa. Mostra-se a conexão entre a estrutura narrativa e a ação como referente. Ao buscar mimetizar a ação, a redescrição é a ação já aí, ou seja, busca apreender a facticidade do horizonte do agir no seu próprio devir.

É no agir individual que notamos o papel fundamental da imaginação para a concretização de qualquer projeto. O que Ricouer reconhece no projeto é seu conteúdo noemático, também chamado de pragma. Seria algo como a finalidade principal que circunscreve o agir. O projeto antecipa teoricamente a ação. Nesse ponto, diz Ricouer, ocorre o jogo hermenêutico. Na execução do projeto se dá o encontro da seta que aponta para o futuro, inerente ao projeto e a que aponta ao passado, contida na descrição narrativa. Nessa troca de grelhas, o projeto recebe o poder estruturante da narração, e esta recebe a capacidade de antecipação do projeto. À imaginação cabe, depois disso, a difícil tarefa de ponderar sobre as possibilidades que motivam a ação. A imaginação também fornece a certeza de que há um eu que busca agir, a imaginação dá a dimensão do eu posso. Só através da relação das diversas narrativas e projetos com a mediação da imaginação é que podemos ter a certeza de um eu.

Porém é na direção do imaginário social que podemos tentar captar as condições que possibilitam a experiência histórica. O ponto de partida para se pensar a intersubjetividade é a quinta Meditação Cartesiana de Husserl, afirma Ricouer. Lá encontramos a noção de acoplamento que permite acompanharmos o fluxo temporal de outro fluxo preexistente e futuro. Intuímos daí o pertencimento a uma tradição histórica e nosso legado. Reencontramos as gerações passadas, as presentes e as futuras num elo mutante muitas vezes interrompido e sempre reinventado. O acoplamento também permite pensar o outro em analogia com meu eu. Assim como eu, os outros seres humanos que me antecederam, que compartilham o meu tempo e os que virão poderão se autoproclamarem eu, porém distintos de mim. Pensar na alteridade como outro eu é poder imaginar qual seria minhas felicidades e angústias ao estar na pele do outro. Nesse sentido, a imaginação pode partir de um aqui para um aí. Decorre dessa imaginação um entrelaçamento do eu mesmo com o outro eu alheio a mim, que sente e sofre como eu, que Husserl denomina intersubjetividade. A imaginação perpassa todas as espécies que constituem o elo histórico, através dessa analogia do ego. Ela também milita para manter sempre viva a conexão entre a intersubjetividade que formamos, contra os vícios da sociedade burocrática que transforma o nós intersubjetivo em eles alheios.

 

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