Wittgenstein e o Mundo

Visamos adentrar a obra de Ludwig Wittgenstein num período de sua produção que vai da publicação do Tractatus Logico-Philosophicus, que aparece em 1921, até os anos de 1930-32 em que Wittgenstein vai ministrar suas preleções em Cambridge. Com isso procuramos distinguir quais das teses do primeiro momento (Tractatus) serão expandidas, alteradas e até mesmo totalmente reformuladas na década seguinte (Conferência sobre a Forma Lógica e Preleções). Faremos um esforço de compreensão no sentido de apreender as teses fundamentais do (I) Tractatus Logico-Philosophicus para, a seguir (II) tratarmos de um texto de Wittgenstein que antecipa em grande parte as teses das preleções, o texto Conferência sobre a Forma Lógica. Estaremos dotados então, das condições para estabelecer as diferenças na ontologia e na gramática entre o momento do Tractatus e o da década seguinte.

  1. Tractatus Logico-Philosophicus

O Tractatus Logico-Philosophicus de Wittgenstein pode ser pensado como um compêndio que se endaga sobre a natureza e relação da linguagem e o mundo a qual “linguistifica”. Para a anti-metafísica crítica do Tractatus, a maioria dos problemas filosóficos seriam dissolvidos se conseguissemos que todas as proposições de nosso vocabulário tivessem sentido. Para uma proposição ter sentido deve figurar, ou representar, corretamente a ordem do mundo. Mas há ordem no mundo? Sim, seria a resposta de Wittgenstein. Uma ordem lógica. Os fatos, ou o mundo “lá fora” aparece sob uma forma lógica que pode ser apreendida pela nossa linguagem. Se essa apreensão corresponder ao modo de configuração do mundo, então minhas proposições vão ser verdadeiras, pois terão uma “forma” idêntica aos objetos do mundo. Se não compreendo a regulação lógica do mundo a maior parte de minhas proposições serão meros absurdos sem sentido, ou então, sentenças falsas.

Vemos então que o problema fundamental do Tractatus é de como se dá a representação do mundo pela linguagem. Necessitamos explorar cada uma das partes desse binômio para compreendermos alguma coisa sobre a representação e com isso poderemos apontar para a ontologia e a função da gramática nessa obra de Wittgenstein. Veremos brevemente (a) a estrutura ontológica do mundo do Tractatus, para, a seguir (b) tratarmos da linguagem atrelada ao mundo e sua estrutura gramatical.

 

(a)- A estrutura ontológica do Tractatus

 

Deixando de lado pelo bem da brevidade uma longa discussão que os comentadores fazem sobre a noção de fato e objeto no Tractatus, podemos dizer que elas são basilares para a constituição da ontologia do livro. Partimos de uma interpretação da frase: “O mundo é a totalidade de fato, não das coisas”1. (Parágrafo 1.1) Não pensamos que Wittgenstein exclui os objetos do mundo, as coisas, nessa frase. Preferimos uma interpretação que considera fato a interação entre distintas coisas. Mas essas interações não são completamente aleatórias. Há uma gama de possibilidade de interação que inclui algumas possibilidades e exclui outras.

Ao lermos o Tractatus percebemos que a definição de um objeto do mundo é variante ao longo do texto. O conceito de objeto parece apenas surgir quando temos linguisticamente as possibilidades ou não que ele intrinsecamente nos traz. Porém, um tipo de objeto simples é condição sine qua non para que haja qualquer relação entre um nomeado e o seu nome. Sem isso não seria possível para a proposição ser uma espécie de figura do mundo. Essa simplicidade essencial de um objeto é correlativa a simplicidade essencial do nome a que àquele corresponde. No limite, isso é o pano de fundo de toda a linguagem, parece mesmo ser o ponto de intersecção mundo-linguagem. Se não fosse assim dificilmente haveria representação.

A simplicidade essencial do binômio “nome-nomeado” é alicerce para todo o Tractatus. Isso porque Wittgenstein pensa as proposições complexas como sendo reduzíveis, no limite, a proposições elementares do tipo “nome-nomeado”. Isso remete a quais tipos de proposições fazem sentido para Wittgenstein no Tractatus. O sentido de uma proposição é determinado pelos nomes que a compõem. Por conseguinte, toda a linguagem pode ser analisada através de proposições elementares, ou também chamadas de atômicas. Com isso algo novo surge: pode-se afirmar que uma sentença falsa faz sentido. Pois: “Aquilo que uma proposição representa é somente seu acordo ou desacordo com as possibilidades de existência ou de não-existência de estados de coisas”2. Podemos pensar então numa frase que faria sentido, segundo o critério do Tractatus, porém que não correspondesse a nenhuma configuração possível das coisas do mundo e, portanto, falsa. Essa possibilidade é algo realmente novo na história da filosofia.

 

(b)-A linguagem e a gramática do Tractatus

 

Já falamos muito sobre a linguagem ao buscarmos falar do mundo do Tractatus. Isso mostra certa correlação lógica e também ontológica entre linguagem e mundo. Representar algo, no sentido do Tractatus, é emitir por meio de palavras uma imagem de uma configuração do mundo e não outra. Através disso vemos um isomorfismo entre linguagem e mundo. As relações lógicas entre todos os possíveis objetos do mundo deve ter correlação perfeita e unívoca com o âmbito linguístico. Ademais o Tractatus repousa sobre uma tese de certo atomismo lógico: considerando uma sentença complexa, é possível encontrar proposições mais simples através de funções de verdade.

Podemos então falar algo sobre a gramática que rege o Tractatus. Gramática, no contexto do Tractatus tem a ver com o projeto de Wittgenstein de tornar a linguagem perfeitamente lógica. Russell, na sua famosa introdução para o Tractatus, nota que para se alcançar o objetivo do livro, dois critérios devem ser definidos: “(1) as condições para o sentido em vez do não-sentido nas combinações de símbolos; (2) as condições de univocidade do significado ou referência nos símbolos ou combinações de símbolos. Uma linguagem logicamente perfeita tem regras de sintaxe que previne o não-sentido, e tem símbolos únicos os quais sempre tem um definido e único significado.”3

A gramática do Tractatus é então essa estrutura lógica que não permite a construção de proposições sem sentido e/ou proposições que remetam para múltiplos significados.

  1. Conferência sobre a Forma Lógica (Remarks on Logical Form)

Ao lermos o texto supracitado vemos primeiramente que Wittgenstein critica a metodologia do sujeito-predicado que remonta a Aristóteles, pois é vaga demais para dar conta de distinguir a multiplicidade lógica dos fenômenos. Percebemos que em Wittgenstein, nesse momento, há um aprofundamento rumo à práxis linguística, ou seja, as situações de uso cotidiano da linguagem estão muito mais relevantes aqui do que no tempo do Tractatus. Aproxima-se da linguagem cotidiana, entretanto não é abandonada a pretensão de uma análise lógica do fenômeno. Para isso, contrariando definitivamente a redução, realizada no Tractatus, que substitui os números pelos quantificadores, e posteriormente nas operações de verdade, Wittgenstein pensa aqui que as proposições atômicas da linguagem estão eivadas, em sua essência, pelos números.

Ademais o projeto de uma linguagem que espelha o mundo em que é ponto culminante o Tractatus, ganha um redimensionamento com a entrada dos números à baila e, por conseguinte, com a mensuração. Porém espelhar o mundo, como vimos, tem sempre algo a ver com a representação. A linguagem, através de suas proposições, representa um estado das coisas do mundo. E essa representação continua sendo pensada como possivelmente verdadeira ou falsa. Por quê? Pois Wittgenstein continua de acordo com uma das concepções fundamentais do Tractatus, qual seja: que está inscrito na natureza do objeto, ou seja, é ontológico, o escopo de possibilidades lógicas que lhe cabem. Por exemplo, há impossibilidade lógica/ontológica para que a nota dó seja vermelha. Podemos julgar falsa ou verdadeira uma proposição, pois reconhecemos uma ordem tal das coisas que nos faz aceitar as possibilidades ou não da interação entre dois ou mais objetos.

Wittgenstein, ao afirmar que: “a ocorrência dos números na forma de proposições atômicas é, na minha opinião, não meramente um dispositivos de simbolismo especial, mas essencial e, consequentemente, um dispositivo indispensável para a representação”4, dá um passo definitivo para uma interpenetração do mundo passível de mensuração nas proposições linguísticas. A estrutura representacional do Tractatus se complexifica amplamente nesse novo momento, pois na busca de abarcar todos os objetos do mundo com diversas e infinitas relações métricas entre si, a linguagem perde sua linha limítrofe com o mundo. O mundo introjeta-se na linguagem. Com isso, soçobram as proposições atômicas, fundamentais para a estrutura do Tractatus. Podemos dizer que o mundo invade o âmbito linguístico que se expande sobremaneira em relação ao Tractatus.

A distinção entre ontologia, como os próprios objetos do mundo, e linguagem, como via de representação do mundo, esta regida por uma gramática lógica, que se fazia possível no tempo do Tractatus não é mais possível nessa nova fase. O sentido de uma sentença não pode mais ser apenas determinado pelos nomes que o compõe. A representação se alarga, pois o objeto não é pensado como cindido em relação à linguagem que o apreende. Nesse momento objetos são fragmentos de linguagem e vice-versa.

A gramática, nesse momento, ainda não permite a construção de proposições sem sentido e/ou proposições que remetam para múltiplos significados. Porém, ligada incondicionalmente com o mundo, Wittgenstein a define: como aquilo que “nos permite fazer algumas coisas com a linguagem e não outras”5, pois a própria “multiplicidade da linguagem é dada pela gramática”6.

Ademais Wittgenstein diz que a gramática é o que possibilita o espelhamento do mundo pela linguagem. Porém a gramática estaria aquém da proposição, que é o que realmente representa o mundo. A gramática não figura o mundo, apenas torna possíveis certas figurações e não outras, de acordo com uma forma lógica que é característica tanto do mundo, quanto da linguagem que o representa.

1 Wittgenstein, Ludwig – Tractatus Logico-Philosophicus, Proposição 1.1.
2 Santos do Carmo, Juliano – Linguagem e Realidade no Tractatus Logico-Philosophicus, 2009, pg. 25.
3 Russell, Bertrand – Introdução do Tractatus Logico Philosophicus, Routledge, 2002, pg. X.
4 Wittgenstein, Ludwig – Remarks on Logical Form, Wiley-Blackwell, tradução nossa, pg. 166.
5 Wittgenstein, Ludwig – Cambridge Lectures 1930-1932, pg.8.
6 Idem Ibidem. 

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