Ode Amarelada

Paredes vivas, que não cercavam meus sonhos! Não as avisei?

Escola fervilhante de tias-avós namoradeiras de outrora. Estás no chão! Ao chão caístes sem querer.

Duas árvores raras cheirosas com flores amarelo-verdinhas de minha infância espinhosa. Onde estão?

O leite colo de mãe da vó servido na temperatura certa. Onde estás?

Soçobraram. Convosco, contigo, soçobro.

Carpete marrom aveludado que tantas vezes aceitou mudo minhas primaveras existenciais!

Avenida pálida reverenciadora de tua indiferença. Não eras uma casa, nunca fostes. Fostes um poço de toda a energia do mundo, de toda a droga do mundo, de todo o mundo.

Que eras então tu? Tu eras eu! Tu és eu! Tu ainda serás eu porque sou tu. Mesmo que tu não existas, nem eu.

Tu estantes poeirentas, tu carpete antigo, tu armários sujos, tu livros ocultos, tu desejos, tu sonho, tu memória, tu amor, tu desilusão, tu família inexistente, tu tartaruga eterna, tu amarelo mangueira, tu galinheiro, tu acolhedora dos abandonados, dos abandonados…

E eu tu, e eu tu, e tu eu.

Ah! o melhor que posso fazer de ti agora é lembrar. Todavia quase quero que minhas lembranças também soçobrem, como tu.

Sinto-me condenado, como tu, a um fim ridículo, desses totalmente sem sentido. Mas termino? Terminas tu? Não termino nem tu! O que fizeste, o que fizemos, o que farei, adentrará séculos mil afora, fora.

Despeço-me de tu como a um navio que desancora rumo aos mares desconhecidíssimos. Navio o qual fostes tu pai e mãe, que nutriu com suas pedras, madeiras e cimento que hoje, lá, naquele nosso chão ancestral, soçobram.

Mas fique bem! Tu não fostes. Não poderias ir. Teu material é ancestral assim como tua alma. Continuará a saudar a mim elegantemente: Vais bem, Rafael? E eu digo: Vou vivo! Assim como tu, vivo.

Roçavas-te em mim tua sexualidade milenar, nuclear. E eu entendia e gostava e gozava. Gozei em ti e sei que gozou em mim e comigo também.

Assisto às suas tábuas cair. Elas geram uma música profética que me diz de mansinho: vai menino, vai virar de cabeça a vida cotidiana, vai entoar canção que só iniciados entendem, vai fazer arte-sacra rueira, vai petiscar a vida a bocanhadas, vai nadar em todos os rios já imaginados, vai penetrar em cada tradição e continuá-las e zombar delas, vai beliscar os que ainda dormem, vai engolir as criaturas que ninguém ousa engolir, vai espremer o suco até não sobrar nenhuma gota, vai ser malandro onde só existem freiras, vai ser papa onde só há putas, vai vomitar a fel em comidas alheias, vai cantar marchinhas de carnaval em todas as procissões religiosíssimas do mundo, vai rezar acanhado no púlpito da Capela Sistina, vai menino, vai….

Eu vou, mas vou armado até os dentes com as armas que me destes.

 

Noite de 22/04/2010

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