Leibniz e a substância do Mundo

           Para compreendermos o processo de individuação da substancia em Leibniz é necessário recorrer à história da filosofia. Leibniz compartilhou com vários filósofos modernos o desejo de engendrar um sistema coeso, porém suas fontes de inspiração são heterodoxas. Se de um lado buscou responder às principais perguntas propostas pela ciência moderna, de outro se inspirou no legado da filosofia medieval. Descartes e seus seguidores tentaram minimizar o antecedente histórico medieval que permeavam suas teses. Leibniz, ao contrário, recoloca a filosofia medieval na pauta do dia. Se olharmos para o professor de Leibniz, Jacob Thomasius, este estava envolvido com problemas escolásticos, porém não sem criticá-los, à maneira dos Renascentistas, por aqueles terem subvertido o pensamento de Aristóteles. Outra forma de reviver o horizonte escolástico reside, aos olhos de Leibniz, em Pierre Gassendi, que foi um dos “fundadores da filosofia moderna” pelo fato de ter “reavivado as opiniões de Demócrito e Epicuro”i, atomistas gregos. Como o escopo de influências de Leibniz é muito grande e não pode ser reduzido apenas ao rótulo de filosofia medieval, buscaremos uma breve colocação histórica (1.) das influências primeiras de Leibniz, para o tema que nos ocupamos, quais sejam: a) a Tradição Escolástica, b) a Filosofia da Renascença e c) os Antecedentes Modernos e Contemporâneos a Leibniz. No segundo momento, dotados de uma brevíssima visão histórica, passamos a uma análise do excerto de Leibniz (2.).

  1. Brevíssimo Panorama Histórico
  1. Tradição Escolástica

           A maioria dos problemas que Leibniz considera é de origem escolástica. O que se diz escolástica, entendamos, foi uma “variedade de técnicas instrucionais – comentários e disputas – introduzidas na Europa Ocidental na Idade Média tardia”.ii Porém ao contrário do que muitos pensam nunca houve um corpus único nas teses escolásticas. No começo do século XVIII o método escolástico cai em desuso na maioria das universidades européias. Porém é sabido que Leibniz travou contato com Francisco Suarez (1548-1617), Kenelm Digby (1603-65), Thomas White (1593-1676) e Honoratus Fabri (1606-88) que levantaram questões como “o infinito, a contingência, a natureza da vontade, e os princípios da justiça, menção ao princípio de individuação”.iii

           Além disso, o “pensamento de Leibniz pode clamar ser um restaurador das formas substanciais, embora com a qualificação que cada substancia individual deve ser tomada como “a menor espécie””.iv Sabe-se também que Leibniz afastou-se do vocabulário da escolástica na sua obra de maturidade, pois pensava que assim seu pensamento seria mais bem recebido no círculo de leitores de sua época.

  1. Filosofia da Renascença

           A renascença filosófica é responsável pela revalorização de grandes doutrinas antigas. Observa-se na época a tradução para o latim de inúmeros pensadores, entre eles: Platão, Plotino e até do egípcio Hermes Trimegisto. Isso possibilitou o re-desenvolvimento do pensamento dito neoplatonico. Um dos pensamentos do neoplatonismo é exatamente o problema que buscaremos desenvolver posteriormente em Leibniz, ou seja, que cada coisa individual é um microcosmo do universo como um todo e tudo emana de um centro ou imita um Criador. A filosofia da renascença abarca um amplo escopo de retomada de doutrinas ancestrais, que de alguma forma devem ser relevadas para o estudo do pensamento de Leibniz: O cabalismo cristão, o Estoicismo, o Ceticismo, e o Aristotelismo.

  1. Antecedentes Modernos e Contemporâneos

           Pode-se considerar que os fundadores da filosofia moderna, Bacon, Kepler, Galileo e Descartes influenciaram de maneira fundamental e contínua o pensamento de Leibniz. Leibniz “viu em Bacon um dos libertadores da filosofia do Escolasticismo e compartilhou com Bacon a importância das intuições científicas”.v Sabe-se que Leibniz fez diversas referencias à idéia de Kepler sobre a “natural inertia” dos corpos. Leibniz leu profundamente o Duas Novas Ciências de Galileo e procurou de alguma forma trabalhar sob o conceito galileano de movimento. Descartes foi o anteparo fundamental da filosofia de Leibniz. Este via a obra de Descartes e dos cartesianos cercada por muita controvérsia. Na obra de Leibniz, Descartes é o filósofo mais citado e criticado. Pode-se dizer que a filosofia de Leibniz reverbera, ora aceitando ora censurando, a filosofia de Descartes.

           Outros autores contemporâneos a Leibniz influenciaram decisivamente sua obra: Thomas Hobbes – Sabe-se que o texto de Hobbes, De Corpore, influenciou os primeiros escritos de Leibniz. Porém, vemos em algumas obras de Leibniz, que este reluta em aceitar o extremo nominalismo e materialismo hobbesianos. Robert Boyle – uma das lideranças na Royal Society. Leibniz envolve-se numa discussão com Boyle sobre a natureza mecanicista do mundo.

           Baruch de Espinosa – Leibniz chegou a encontrar-se com Espinosa. Sabe-se que era um grande admirador das idéias de Espinosa. Leibniz, de alguma forma, relê o monismo, o panteísmo e o determinismo de Espinosa, porém com grandes torções teóricas.

           Podemos ainda incluir Nicolas Malebranche, Antoine Arnauld, Isaac Newton, John Locke e Pierre Bayle como autores contemporâneos a Leibniz e fundamentais para a sua formação intelectual.

  1. Análise do trecho de Leibniz

           Buscamos até o momento, da forma mais breve possível, situar o pensamento de Leibniz na história da filosofia. Passaremos a análise aprofundada do texto abaixo de Leibniz:

“(…) segue-se [da noção de substância individual] que toda alma é como um mundo à parte, independente de qualquer outra coisa com exceção de Deus (I) ; que [a alma] é não só imortal e, por assim dizer, imperecível, mas que guarda em sua substância restos de tudo o que lhe acontece. (II) Segue-se também a explicação do comércio das substâncias e, particularmente da união da alma com o corpo (III)”

I – “(…) segue-se [da noção de substância individual] que toda alma é como um mundo à parte, independente de qualquer outra coisa com exceção de Deus”

           Para nos aproximarmos de uma demonstração de como a noção de substância individual opera no sistema leibniziano é necessário primeiramente definir o termo substância, em Leibniz:

           “Um termo que deriva de Aristóteles que se refere aos sujeitos de predicação e os objetos da investigação científica. […] Leibniz considera que há dois tipos de substâncias fundamentalmente diferentes: Deus, como um puro espírito, e substâncias criadas todas contendo corpos. Todas as substâncias, de acordo com Leibniz, são capazes de ação. […] Uma substância deve ser uma real unidade. Há um tempo ele parece ter sustentado a visão que a unidade das substâncias corpóreas está sub-escrita pelas suas formas substanciais. Mas sua visão posterior parece ser que cada substancia deve ser algum tipo de coisa vivente, com alguma coisa de percepção e algo de apetição. Leibniz posteriormente referiu à suas substâncias simples por mônadas.”vi

           Considerado isso, tem-se o problema metodológico de como entrar na filosofia de Leibniz. Deve-se iniciar pelas questões mais gerais e ir descendendo até as substâncias mais simples? Ou o caminho contrário deve ser adotado? No nosso caso, trataremos de Deus pela ótica da substância individual, iniciaremos naturalmente pelo elemento mais simples de todos, a substância individual.

           O conceito de um individual é o núcleo do conhecimento da metafísica pensada por Leibniz. Este conceito parece fugir de um tabu que cerceou a filosofia desde Aristóteles de que o “Individuum est ineffabile”.

           A individuação foi um conceito central da escolástica e da Idade Média, como podemos ver nas obras de Ockham e Duns Scotus. Leibniz faz referencia explicita no Parágrafo 8 do Discurso de Metafísica ao conceito de ecceidade, criado dentro da filosofia de Scotus para dar conta da natureza comum da individualidade.

           Logo após a primeira definição de uma substância individual, Leibniz insere sua famosa Identidade dos Indiscerníveis no Par. 9 do Discurso de Metafísica que diz:

           “Ademais, toda substância é como um mundo completo e como um espelho de Deus, ou melhor, de todo o universo, expresso por cada uma à sua maneira, quase como uma mesma cidade é representada diversamente conforme as diferentes situações daquele que a olha.”vii

           Os comentadores apontam para a noção introduzida também no Par. 9 do Discurso de Metafísica de conceito completo (notion complete):

           “cada substância individual ou “ser completo” tem um conceito completo que inclui tudo que é verdade sobre ele. Assim as duas noções (ser completo e conceito completo) […] sugerem um conexão entre a lógica e a metafísica (de Leibniz)”.viii

           Após 1690, Leibniz substitui o conceito de substância individual pelo termo mônada. O termo mônada remete à palavra grega “um”. O termo mônada é também encontrado nos trabalhos de Plotino, Giordano Bruno, Henry More e Ralph Cudworth.

           “Mônadas são entendidas nos escritos de Leibniz como almas ou formas e, em alguns casos, mentes. Porém eles estão sempre unidos a um corpo de algum tipo, mesmo no caso dos anjos que necessitam de corpos para se comunicar entre si. Somente Deus, de acordo com Leibniz, é inteiramente independente de um corpo. Deus, anjos e humanos estão, como mentes racionais, no topo da hierarquia leibniziana das mônadas. No nível mais baixo estão as almas de criaturas infinitamente pequenas que constituem o universo físico.” ix

           Os comentadores afirmam que os conceitos a seguir que também são atribuídos a substância individual e, por conseguinte a mônada, têm origem escolástica:

           “Impredicabilidade – da qual uma condição de uma substância individual não é (não pertence a) nada do mesmo modo que propriedades estão na (pertencem a) substância; Incomunicabilidade – o sentido central do qual resulta que as substâncias são indivisíveis, de acordo com quais as substâncias individuais não são comuns a muitas coisas (diferentemente dos universais que são ocorrentes em muitas coisas ao mesmo tempo); Identidade – construída diacronicamente como a capacidade em permanecer na mudança (alteração); Divisão – o qual em termos escolástico é: “a capacidade em dividir em espécies” como cachorros individuais são divididos em espécies caninas; e Distinção e Diferença – o qual é dito que a substância é contável sob a relação de identidade numérica, como Sócrates e Platão são ditos dois. ”x

           Na obra Os princípios da filosofia ou a Monadologia Leibniz acrescenta outras propriedades que devem pertencer a mônada. Se forem os elementos mais simples da natureza então devem existir elementos compostos por estes. A mônada poderia apenas começar por criação e terminar por aniquilação além de não ser possível sua dissolução, entre outros.

II – “que [a alma] é não só imortal e, por assim dizer, imperecível, mas que guarda em sua substância restos de tudo o que lhe acontece.”

           “O termo alma, Leibniz escreveu em 1710, pode ser usado amplamente, para dizer “vida” ou “princípio vital”, e num sentido estrito, para significar “o princípio da ação interna que existe numa coisa simples ou mônada”xi. Tudo no universo, de acordo com Leibniz, é uma alma ainda que as almas difiram amplamente em [níveis de] perfeição. A natureza das substâncias pode por essa razão ser entendida por analogia com nossas próprias almas, da qual nós temos uma idéia (mesmo que uma idéia confusa) de uma substancia. As almas na natureza nunca são inteiramente separadas dos corpos orgânicos, mas todas são “naturalmente indestrutíveis”, pois são indivisíveis” xii

           Na obra Os Princípios da Filosofia ou a Monadologia a associação entre mônadas e almas é acompanhada também de uma distinção:

           “Se quisermos chamar de Alma tudo o que tem percepções e apetites no sentido geral que acabo de explicar, todas as substâncias simples ou Mônadas criadas poderiam ser chamas de Almas; mas como o sentimento é algo mais que uma simples percepção, admito que o nome geral de Mônadas e de Enteléquias baste para as substâncias simples que só tenham percepção; e que se chame de almas só aquelas cuja percepção é mais distinta e acompanhada de memória”xiii

III – “Segue-se também a explicação do comércio das substâncias e, particularmente da união da alma com o corpo”

           A união do corpo e alma é um tema usual na maioria dos contemporâneos de Leibniz. Na maioria deles essa união soa como um grande mistério. Descartes postulou um órgão do corpo, a glândula pineal, que seria responsável pela união das extensões com o pensamento.

           Em Leibniz, ao que parece, a questão não é definida rigorosamente. Leibniz pensa numa hipotética Harmonia Pré-estabelecida de união do corpo com a alma. No Novo Sistema da Natureza (§14) propõe que a “relação mútua” que Deus pré-estabeleceu é o que “sozinha constitui a união entre alma e corpo”. Porém numa resposta a Robert Boyle, Leibniz diz: “A dificuldade sobre a união da alma e do corpo é tão grande quanto a dificuldade sobre a encarnação”xiv. O grande mistério desta união parece ter permanecido em Leibniz.

i Cambridge Companion to Leibniz, 1995, Nicholas Jolley (editor), Pg. 44.
ii Dictionary of World Philosophy, A Pablo Iannone, 2001, Routledge, London and New York, verbete Scholastic.
iii Cambridge Companion to Leibniz, 1995, Nicholas Jolley (editor), Pg. 52.
iv Idem Ibidem.
v Idem Ibidem, Pg. 49.
vi Historical Dictionary of Leibniz’s Philosophy, Stuart Brown and N. J. Fox, The Scarecrow Press, Inc, 2006, Pg. 222.
vii Discurso de metafísica e outros textos, G. W. Leibniz, Martins Fontes, 2004, Pg. 18.
viii Historical Dictionary of Leibniz’s Philosophy, Stuart Brown and N. J. Fox, The Scarecrow Press, Inc, 2006, Pg. 52
ix Idem Ibidem, Pg. 152.
x Substance and Individuation in Leibniz, J. A. Cover, John O’Leary-Hawthorne, Cambridge University Press, 1999, Pg. 14.
xi Gerhardt, Carl I., ed. Die philosophischen Schriften von Gottfried Wilhelm Leibniz. 7 vols. Berlin: Weidmann, 1875–1890. Vol. VII pg. 529.
xii Historical Dictionary of Leibniz’s Philosophy, Stuart Brown and N. J. Fox, The Scarecrow Press, Inc, 2006, Pg. 214.
xiii Discurso de metafísica e outros textos, G. W. Leibniz, Martins Fontes, 2004, Pg. 134.

xiv German Academy of Sciences (auspices). G. W. Leibniz: Sämtliche Schriften und Briefe. Berlin: Akademie Verlag, 1923, VI iii Pg. 227.

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