Kepler e a harmonia do mundo

          Tema 5: Natureza e método no nascimento das ciências exatas: os aspectos metodológico e ontológico do conceito kepleriano de harmonia e a afirmação de que a finalidade dos estudos deve ser a orientação do espírito para que faça juízos verdadeiros sobre todos os assuntos.

          Trataremos a seguir brevemente da ontologia e da metodologia inscritas no conceito, de Johannes Kepler, de harmonia. As categorias subjetivas e objetivas que vinham entrelaçadas em praticamente todos os outros autores do Renascimento sofrem, em Kepler, uma redescrição. O subjetivo ganha uma atividade de criação conceitual embasada na matemática e mais especificamente na geometria, que ao projetá-la na natureza, demarca contundentemente seu âmbito de ação. A subjetividade cria e posteriormente verifica a proporção entre os objetos do Cosmos. Ademais, de alguma forma, a natureza está também introjetada de princípio no sujeito, pois Kepler sustenta a existência de ideias inatas. Sem dúvida, Kepler, mesmo que se mantenha em muitos pontos altamente devedor a Escolástica, é um divisor de águas na história do nascimento da ciência moderna.

          Cassirer aponta que o aprofundamento do uso dos processos matemáticos, na ciência moderna, entre outras coisas, cumpre um papel de redução, para o conhecimento, da grande pluralidade da empiria. Esta deve passar pelo crivo da elaboração mental da matemática. Em vez de se conformar diretamente com o mundo, o sistema matemático busca primeiramente plena coerência interna, e só então tenta plasmar o mundo com seu constructo. Porém, é o segundo momento que garante a eficácia, ou o valor físico, contida nas elaborações matemáticas. A busca por percepções adequadas vai sendo substituído, com o aprimoramento da matemática e da lógica, por uma metodologia que vê no conceito o núcleo do conhecimento.

          Cassirer argumenta que a obra de Johannes Kepler representa uma nova configuração da relação entre o sujeito do conhecimento e o objeto. Cassirer também explica que os movimentos científicos de dedução e indução já estão plenamente visíveis em Kepler. Todas as etapas da dedução são checadas nos fatos mesmos, o que pode vir a mudar a trajetória dedutiva. Vê-se o pleno uso por Kepler da indução, por exemplo, nas suas observações sobre o planeta Marte. Na dedução inicia-se por uma busca de compreensão da realidade objetiva sem intermediações subjetivas. Os fatos mesmos adquirem total primazia em qualquer dedução. Porém, arrancar objetividade dos fatos é realizar uma observação atenta e precisa. Em um segundo momento, ocorre uma projeção das estruturas do pensamento sobre essas observações que adquire, em Kepler, importância fundamental.

          A observação mesma não deve ser “a prova que os fenômenos astronômicos obedecem a rigorosas leis matemáticas; isto é somente o suposto, a premissa de que tem que partir, em geral, nossa investigação”1. Ao falar da teoria de Copérnico, Kepler diz: “aquilo que Copérnico estabeleceu por observação, a partir dos efeitos, a posteriori, como um cego afirma seus passos com o bastão […], em uma conjuntura mais feliz que confiável, e mesmo acreditou que as coisas eram assim, todas estas coisas, digo, sejam deduzidas como perfeitamente estabelecidas mediante razões a priori, a partir de causas, deduzidas da ideia de criação.”2 Todavia à análise do movimento dos planetas não podem surgir sem uma explicação concernente às causas desse movimento, nesse ponto veremos o esforço de Kepler para pensar qual é a natureza ontológica do mundo.

          Há uma ordem inexorável das coisas que o observador busca capturar. Para tal o dado sensível não é aceito de maneira passiva, ao espírito observador cabe uma atividade no sentido de revelar o segredo do universo. Diz Kepler: “o conhecimento das quantidades, conhecimento inato à alma, determina necessariamente o caráter e a natureza do olho: a estrutura deste depende da natureza do espírito, e não o inverso”3.

          Donde vemos que a estrutura geométrica do pensamento impõe sua função ao olho. Há então uma teleologia nesse ponto, a função do olho é anterior à própria estrutura deste. É fundamental notar no texto de Kepler que ao mesmo tempo em que o sujeito do conhecimento intenta harmonizar-se com o mundo a sua volta, é necessário para isso que o sujeito se aparte e se reconheça como, em certo sentido, um “outro” do mundo.

          Kepler pensa, de acordo com a teoria platônica da reminiscência, que há noções sobre o mundo que estão enterradas no sujeito que busca conhecê-lo, como se estivessem dormentes ali. Porém é retirado o elemento místico da teoria platônica. Há ideias inatas, que só podem ser acessadas se o sujeito buscar no mundo algo que corresponda a essas ideias. Daí a importância da ciência, ela põe o sujeito em busca ativa pelo o que é o mundo e, por conseguinte, pelo que o sujeito realmente é, sua natureza mais íntima, reveladas pelas ideias inatas. Daí que para Kepler a atividade do conhecimento é infindável. Veremos que nessa atividade do sujeito é que a harmonização com o mundo terá sentido.

          Vemos na introdução à obra El Secreto del Universo (Ou numa tradução mais fidedigna O Mistério Cosmográfico) intitulada Dedicatória Antiga que Kepler pensa ser inerente à própria natureza da razão humana buscar o conhecimento. É dever dos homens de bom critério o estudo da natureza, das obras artísticas, pois isso dá prazer à mente. O homem que não se dedica aos estudos vai mesmo contra a natureza humana. Mas o que é conhecer? Kepler deixa claro que conhecer é fundamentalmente conhecer as causas. A natureza se revela ao homem que busca conhecer suas causas últimas, entretanto Kepler não pensa num ponto final da ciência em que toda a ordem e causalidade do mundo pudesse ser capturada pelo homem. Diz Kepler:

          “ao jogar com os símbolos, não duvido nunca que se trata somente de um jogo. Os símbolos nunca provam nada; nenhum mistério da natureza é revelado e levado à luz por meio de símbolos geométricos. Estes somente apresentam resultado já conhecidos de antemão; ao menos que se demonstre por meio de razões seguras que não se trata simplesmente de símiles, e sim da expressão da natureza e as causas dos nexos entre as coisas”4.

          Também na Dedicatória Antiga surge também a noção de Deus de Kepler. Com certeza há muita controvérsia sobre qual o papel de Deus e da criação em Kepler. Kepler está menos preocupado em garantir que a causa última de constituição da realidade seja Deus, e mais em compreender quais os tipos de proporção fazem sentido no universo e quais não o fazem. Porém, como veremos, o homem, de alguma forma, participa do divino, pois no limite é possível ao homem desvendar toda a trama do mundo. Participar do divino entenda-se, se dá quando o sujeito compreende a organização racional da natureza, que de alguma forma já se encontra na própria subjetividade. É nesse sentido que Kepler pensa na harmonia do homem com o mundo e, portanto com Deus.

          Ainda sobre o Deus de Kepler, no capítulo II de El Secreto del Universo, é dito que “Deus criou a matéria e não outra coisa”. Porém continua Kepler: “a quantidade [de matéria] foi o propósito de Deus. Pois Deus quis com isso que a quantidade existisse antes de tudo, para que existisse uma comparação entre o curvo e o reto”5.

          Decorre daí, por exemplo, que, em Kepler, não há na natureza ação que seja de origem imaterial ou suprasensível. Mas voltemos a caraterização de Deus, para Kepler. Deus é pensado também, no início do capítulo XI, como aquele que nada quer que não seja com razão máxima. Aqui vemos talvez a intuição principal de Kepler para a geometrização/matematização de todo o mundo. Toda a discussão posterior, sobre a justaposição de diferentes figuras geométricas correlacionadas com o arranjo planetário se apoia sobre uma diferenciação, qual seja, entre o curvo e o reto.

          Buscaremos então compreender o que Kepler pensa das figuras geométricas, necessário para tratarmos posteriormente do conceito de harmonia. Nas Notas Primitivas do Autor para o Capítulo II, lê-se: “A nobreza dos sólidos depende da simplicidade e da igualdade de distância dos planos até o centro da figura”6. Vemos aqui um juízo que remonta à Aristóteles e a Antiguidade, que afirma a maior nobreza e perfeição ao círculo, já que é a figura geométrica em que há equidistância de quaisquer um dos seus pontos em relação ao centro. Prosseguindo no texto imediatamente posterior, lê-se: […] “Em igual que Deus é modelo e regra para as criaturas, do mesmo modo é a esfera para os sólidos”7.

          Omitiremos algumas das propriedades que Kepler atribui à esfera, menos uma. A esfera contém a imagem de Deus Uno-Trino em sua superfície: “isto é, do Pai no centro, do Filho na superfície, do Espírito na regularidade da relação entre o ponto e a circunferência”8. Kepler atribui a perfeição absoluta à esfera e, por conseguinte ao curvo, que seriam obras da Ideia perfeitíssima de Deus. Kepler pensa que o reto e o curvo eram atributos de Deus, que para imprimi-los no mundo necessitou de quantidades e para isso de matéria. Porém, e aqui é decisivo como a observação sustenta as teses de Kepler, lê-se: “Mas ainda que nos encontramos com os três gêneros de quantidades no mundo, a figura, o número e a extensão dos corpos, entretanto, o curvo somente encontramos na figura”9. Para esta afirmação Kepler tem respaldo nos dados de Brahe, que Kepler afirmou serem decisivos para sua obra.

          Já analisamos o curvo, voltemo-nos ao reto agora, de acordo com Kepler. Da multidão de figuras geométricas regulares Kepler seleciona cinco as quais tem por característica comum que qualquer plano formado em seus interiores seja todos equiláteros e equiângulos, a saber: o cubo ou hexaedro, a pirâmide ou tetraedro, o dodecaedro, o icosaedro e o octaedro. Kepler ainda distingue entre estrelas fixas, a grande maioria dos corpúsculos siderais, e os planetas na qual a diferença entre eles é evidente, ou seja, enquanto os últimos têm movimento, os primeiros não. Temos então montado o arcabouço no qual Kepler montará seu modelo planetário. A montagem é a seguinte: supõe-se justapostas as cinco figuras geométricas e em torno de cada uma delas uma orbe, ou esfera, o que daria o número de seis esferas. Kepler diz que este modelo é da “verdadeira astronomia”, o que demostra que seu modelo já deveria ter passado pelo crivo dos testes observacionais.

          Se apoiando em Copérnico, Kepler atribui que entre Marte e Júpiter exista uma pirâmide ou tetraedro. Da mesma forma, afirma que Saturno rodeia um cubo e um cubo rodeia Júpiter, Vênus rodeia o octaedro e o octaedro rodeia Mercúrio, é provável que Marte gire em torno da Terra e que entre eles esteja um icosaedro ou um dodecaedro, assim como a Terra está separada de Vênus por um ou por outro. Mas por que este esquema e não outro? Pois essas são as cinco figuras plenamente regulares da Matemática. Esta teria sido a receita do mundo, usada por Deus, para atribuir inteligibilidade e harmonia ao Cosmos.

          Do que vimos até aqui podemos concluir que: os objetos geométricos curvos mais perfeitos, ou seja, as esferas circunscrevem os objetos retos mais perfeitos, quais sejam, os cinco sólidos geométricos regulares: cubo, octaedro, dodecaedro, icosaedro e tetraedro. O que Kepler espera ter feito com isso? Além de deduzir as proporções fixas de tempo de rotação e distância dos planetas em bases geométricas vistas como perfeitas, ele esperava ter provado que “as Matemáticas são as causas das coisas naturais, porque Deus Criador teve consigo desde a eternidade a Matemática como arquétipo, em uma abstração simplicíssima e divina, incluindo as próprias quantidades, consideradas materialmente”10. O que fica evidente mais uma vez, nessa exposição, é que a razão tem primazia sobre a observação, pois é aquela e não esta que mostra as causas das coisas. A observação corrige, apara as arestas da razão.

          Da mesma forma que a distância dos planetas está em relação com os cinco sólidos geométricos, Kepler vê que a lei musical harmônica determina o movimento astral. Kepler se lança em busca de analogias que abarcam todo o universo, como a que da média de vibrações de sons harmônicos está em relação com a velocidade dos distintos planetas. Dessa busca talvez decorra a terceira lei de Kepler que postula: “Os quadrados dos períodos de revolução dos planetas são proporcionais aos cubos dos eixos maiores de suas órbitas”.

          O conceito de harmonia adquire centralidade na teoria do conhecimento de Kepler. Primeiramente denota a intuição que o universo está ordenado e organizado por leis geométricas. A explicação de Kepler sobre o porquê da colocação da pirâmide no cubo é interessante para notar as implicações da noção de harmonia, diz: “a geometria ensina uma colocação da Pirâmide no Cubo muito mais harmoniosa e perfeita; harmoniosa porque a razão geométrica da inscrição daquele neste é também harmoniosa no mundo”11. A harmonia se mostra também no microcosmo, nas rochas, nos cristais. Como vimos, Kepler afirma que está na natureza humana a busca por conhecimento. Ademais, o pensamento de Kepler é inovador, pois propõe a criação pelos seres humanos de relações entre todo o Cosmos que podem ou não ser verificadas num segundo momento.

          Todavia a harmonia não está somente nas coisas do mundo. É também função do espírito que busca compreender o mundo. Decorre daí que da ordenação dos objetos “lá fora”, ou seja, do mundo, há uma correlação do esforço espiritual rumo à plenitude e a perfeição. Diz Kepler: “Felizes as almas cujo primeiro cuidado foi conhecer estas coisas e ascender às estâncias superiores.”12. Ao notarmos as relações harmônicas no mundo, nos harmonizamos interiormente, não de maneira mística, porém lógica. Pois “assim como a harmonia não reside nos sons mesmos, e sim que é nosso espírito quem a cria, é a regra do pensamento a que dá unidade e coerência ao caos das sensações.”13. Há uma espécie de adaptação da esfera da subjetividade à esfera do mundo, e isso é um trabalho ativo do intelecto, que compreende etapas distintas de criação conceitual e verificação destas no mundo.

          Anteriormente a Kepler as etapas eram de verificação/observação dos fenômenos e então criação do sistema filosófico explicador. Kepler inverte essa tradição. A partir de Kepler os dados sensíveis estão submetidos ao rigorismo racional que primeiramente cria seus sistemas, e só então checa no mundo sua verdade. Mas, sem dúvida, há uma relação lógica de harmonia e adequação entre a subjetividade e o mundo, pois o microcosmo do sujeito identifica elementos no macrocosmo universo que o impele à atividade de conhecer. Kepler não mantém, entretanto, a cisão entre essas categorias. Há uma relação intrínseca entre sujeito e mundo, de interdependência imanente. Porém a subjetividade permanece apartada do mundo que é objeto de conhecimento. Aqui vemos conservada a “alma do mundo” cara a filosofia da natureza imediatamente anterior a Kepler, porém este realça o caráter geométrico/relacional e, portanto, matemático, desse mundo.

          Nesse ponto Kepler não está muito distante de Galileu. Em Galileu vê-se uma matematização tamanha da matéria, a substância clássica, que já se aponta para uma plena independência de um ente extenso para o aprimoramento do sistema da matemática. Galileu, sem se vincular com um método do tipo cartesiano, propõe um isomorfismo entre quaisquer duas porções de matéria do Universo. No limite, com isso ele consegue tratar a matéria como um correlativo dos números.

          Talvez possamos pela primeira vez tentar capturar o método kepleriano em toda sua profundidade. A criação de possíveis estruturas de explicação do mundo antecede a própria observação do mundo. Esse ato de criação do sujeito se dá sobre uma base matemática/geométrica, que remonta aos Pitagóricos. Essa base matemática parece ser universal, ou seja, parece estar inscrita no próprio modus operandi do universo e, por conseguinte, no próprio sujeito que procura conhecer. Ao observar fora de si relações de proporções o sujeito tem prazer e busca conhecer ainda mais. O método de Kepler já aponta para uma matemática totalmente independente de uma física, mesmo que seu sistema ainda não seja de independência total.

          Em Kepler a necessidade de uma física decorre da necessidade de uma visão sistemática, em que a astronomia e suas leis são apenas uma parte do todo das experiências humanas. Cassirer nos diz que a hipótese física e sistemática de Kepler é “resultado das considerações teóricas gerais e fundamentais acerca do que é e como atua uma “força natural””14. Há em Kepler, mesmo que não nomeadamente, uma “mecânica científica abstrata”. O astrônomo deve fazer toda uma física sistemática, que dê conta das observações, não o contrário. “O primeiro que fazemos é descrever por meio de hipóteses a natureza das coisas; então, erigimos sobre esta base um cálculo, isto é, derivamos dela os movimentos por meio de rigorosas provas dedutivas”15.

          O conceito de força exerce papel decisivo no nascimento da ciência moderna. Cassirer diz que força pode ser pensada, na época moderna, como “uma crítica e aprofundamento do conceito aristotélico de potência”16. Em Kepler o uso do conceito de força aparece no momento mesmo do início de suas investigações. Aplicar o conceito de força já é um estágio prototípico da história da ciência que aponta para um Cosmos organizado mecanicamente. Em Kepler, mesmo que elementos não mecânicos ainda transpareçam, já vemos elementos nítidos do Cosmos dos modernos. Por exemplo, em vez de considerar o todo do universo em analogia com um ser vivo, a analogia se estabelece com um mecanismo de relojoaria, aponta Cassirer. Pode-se dizer que Kepler desenvolve a dinâmica na sua formulação moderna. O que lhe falta são as noções matemáticas, as leis do movimento que só aparecerão com Newton. Em decorrência de sua metodologia logicizante e de sua precisão na escolha dos temas, a Kepler é permitido antever boa parte do futuro desenvolvimento da Ciência.

          Cassirer ainda nos diz que Kepler aceita quase que totalmente a teoria de William Gilbert, no tocante a força gravitacional. Este postula, na obra Philosophia Nova, contrariando totalmente a física aristotélica, que o lugar não exerce nenhuma influência no movimento de um corpo. Somente as forças que nele residem podem movimentá-lo ou estacioná-lo. Kepler, tendo em vista a obra de Gilbert, consegue até mesmo explicar o movimento das marés através da interação entre Terra e Lua, antecipando em grande medida Newton. Kepler atribui às relações de interdependências a plausibilidade para a queda de um corpo, por exemplo. Enquanto este corpo atrai a Terra, esta atrai o corpo e assim é em todo universo.

          Torna-se visível como as leis de Kepler são decorrência de seu método de análise lógica/relacional do Cosmos. Kepler não esbarra nas leis de Newton, pois pensava a força gravitacional circunscrita ao plano das órbitas planetárias, diminuindo de intensidade ao se aumentar a distância. Mas mesmo que Kepler não tenha encontrado as famosas leis de Newton, seu passo foi decisivo nessa direção. Mais uma vez vemos que a partir de um constructo mental, nesse caso a ideia de força, Kepler chega muito perto de relações que subsistem nas coisas empiricamente. De qualquer forma, a antiga metafísica que propunha um motor imóvel para o universo é abalada fundamentalmente.

          Concluindo, o método kepleriano considera a geometria como o ápice da elaboração das ciências matemáticas. Para ser possível ao homem adentrar na malha da natureza é necessário um ponto de partida metodológico, que recomenda e define as hipóteses que devem ter relevância e outras que devem ser descartadas. Postular nada fora da matemática, como fez Kepler, é deslocar a metafísica e a ontologia clássica para a própria matemática. Através da matemática as hipóteses são construídas e colocadas no mundo, ou seja, o intelecto postula a própria percepção do mundo. Com isso Kepler reafirma a autoridade de Euclides perante toda a nascente ciência moderna.

          Como vimos, há uma dupla via da harmonia. Num primeiro momento o homem nota proporções fixas entre os entes astronômicos, mas num segundo momento o próprio sujeito que busca conhecer reconhece em seu próprio espírito a harmonia. O que é visto de harmônico nos objetos é correlação para o sujeito ele mesmo se harmonizar. Há relações de proporções entre tudo no Universo, que leva o sujeito a buscar cada vez mais o conhecimento dessas relações, como se elas fossem um alimento vital.

          Não se trata, em Kepler, de decifrar realmente o papel de Deus. Mesmo que Kepler trate desse problema, as causas finais do mistério da criação aparecem a ele como insolúveis. Por isso ao homem cabe ir descobrindo as relações e a organização racional do universo, que em certa medida já se encontra no microcosmo da subjetividade. Para esse intento a geometria aparece como fundamental. As relações que a geometria encontra no universo excitam o sujeito a conhecer cada vez mais. No limite, a distinção entre subjetividade e objetividade se desvanece.

          Como vimos, Kepler representa uma nova e importantíssima fase no nascimento da ciência moderna. Além de propor novas formas de se pensar as relações entre o objetivo e o subjetivo, seu método de geometrização do universo será fundamental para o ulterior desenvolvimento da ciência, até os dias de hoje. O papel de criação autônoma de estruturas de explicação da realidade é procedimento corrente na ciência de nossos dias. Isso até mesmo antecipa o papel de uma matemática totalmente independente de uma física que durante muito tempo impediu o reconhecimento da matemática como importantíssima para a ciência.

          Como último ponto, voltemos para a questão da harmonia. Para Kepler seria impossível ao ser humano, ao ver uma experiência que contém uma pluralidade tão grande de objetos, estabelecer qualquer tipo de relação, se não fosse uma função da própria subjetividade a busca de uma harmonia. É só por isso que faz sentido o estabelecimento de relações entre os próprios objetos. A base da harmonia é, então, o sujeito. Nesse sentido Kepler antecipa totalmente a Descartes e os modernos, que num sentido metodológico invertem a metafísica da substância clássica rumo ao “lugar” próprio da subjetividade.

          Subjetividade essa que visa melhorar sempre. Melhorar, nesse contexto, significa o estudo atento para que se possa emitir juízos sólidos e verdadeiros sobre tudo. Um empreendimento nada despretensioso, tanto para Kepler que vê nesse compromisso algo tão natural como o alimento de cada dia, quanto para Cassirer que parece notar na própria história da ciência esse desenvolvimento inerente no sentido de que a ciência hodierna sempre será o ápice da história da sua evolução, que trata com maior abrangência e maior profundidade todos os temas propostos em todas as outras épocas.

          Richard Rorty, autor americano falecido recentemente, diz que um tipo de utopia que nos ajudaria em muitos dos dilemas éticos e julgamentos que temos que fazer todos os dias seria: é possível, faz sentido, pensar numa versão melhor de nós mesmos. Se conseguimos pensar nesse psicologismo virtual que têm potencializadas nossas qualidades e diminuídas nossas fraquezas, então talvez encontremos novos caminhos de resolução de nossos dilemas. Porém, a palavra utopia não é entendida aqui no sentido clássico de uma tentativa de se propor novos mundos, como uma crítica extremada ao mundo que de fato existe. Aqui, lembrando Kepler e Cassirer, ela cumpra um papel simples, que é o de soar a campainha de alerta contra uma vida irrefletida. Que, no maior estilo platônico, talvez não mereça ser vivida.

1 CASSIRER, Ernst – El problema del Conocimiento en la Filosofia y en la Ciencia Modernas –Fondo de Cultura Económica – Pg 311.
2 KEPLER, Johannes – El secreto del universo – Alianza Editorial – Pg. 96
3 Apud CASSIRER, Ernst – El problema del Conocimiento en la Filosofia y en la Ciencia Modernas –Fondo de Cultura Económica – Pg 309.
4 Idem Ibidem, Pg 316.
5 KEPLER, Johannes – El secreto del universo – Alianza Editorial – Pg. 92.
6 Idem Ibidem, pg. 100.
7 Idem Ibidem.
8 Idem Ibidem, pg. 93.
9 Idem Ibidem, pg. 94.
10 Idem Ibidem, pg. 125.
11 Idem Ibidem, pg. 127.
12 Idem Ibidem, pg. 57.
13 Apud CASSIRER, Ernst – El problema del Conocimiento en la Filosofia y en la Ciencia Modernas –Fondo de Cultura Económica – Pg 314.
14 Idem Ibidem, pg. 313.
15 Apud Idem Ibidem, pg. 314.

16 Idem Ibidem, pg. 320.

Um comentário em “Kepler e a harmonia do mundo

  1. Mozart da Fontoura Malafaia 30/09/2012 — 13:34

    Em nossa vã ignorantia, Kepler estava antevendo os contornos principiológicos da física Quântica, até com alguns “ensaios” sobre a própria pós-Quântica, que é assim que vemos e Sentimos perceptivamente o Mundo dos MUNDOS que nos cerca o nosso Microcrosmo, numa visão íntero-exterior da Vida Cósmica!

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