Kant entre Leibniz e Locke

          Buscaremos aqui demonstrar em que sentido Kant, cônscio dos dilemas filosóficos que pareciam irreconciliáveis em sua época, constrói um diagnóstico da razão humana que abarca, de um lado, as pretensões dos que disseram que à razão corresponderia exatamente o que a empiria ou a sensibilidade poderia fornecê-la, e, de outros, que afirmaram que a razão somente contém conceitos ou entendimento e, por isso, dispensa qualquer mundo empírico.

Na Crítica da Razão Pura diz-se:
          “O nosso conhecimento provém de duas fontes fundamentais do espírito, das quais a primeira consiste em receber as representações (a receptividade das impressões) e a segunda é a capacidade de conhecer um objecto mediante estas representações (espontaneidade dos conceitos); pela primeira é-nos dado um objecto; pela segunda é pensado em relação com aquela representação (como simples determinação do espírito).” Pg. 88 Kant afirma que a razão humana ultrapassa a experiência empírica, mas esta é necessária para qualquer conhecimento. O conhecimento sempre implica simultaneamente a receptividade da sensibilidade e as representações conceituais do entendimento.
          Gilles Deleuze aponta que, para Kant: “[…]a nossa constituição é de tal ordem que possuímos uma faculdade receptiva e três faculdades ativas. […] Devemos distinguir, por um lado, a sensibilidade intuitiva como faculdade de recepção e, por outro, as faculdades ativas como fontes de verdadeiras representações. Tomada na sua atividade, a síntese remete para a imaginação; na sua unidade, para o entendimento; na sua totalidade, para a razão”Pg. 16
          Tamanho aparato racional acaba relegando o papel do objeto que é dado na experiência como fenômeno para o de um mero coadjuvante do conhecimento. Há um arcabouço de regras racionais que é usado para condicionar os objetos. Isso ficou conhecido na filosofia kantiana como revolução copernicana.
          A crítica kantiana endereçada a Leibniz e a Locke parece ter o mesmo teor. Ambos limitaram o âmbito da razão. Enquanto aquele viu o todo da razão como entendimento apenas, este pensou a razão como correlata perfeita da sensibilidade. Analisaremos brevemente as obras Os princípios da Filosofia ou a Monadologia de Leibniz e o Ensaio sobre o Entendimento Humano de Locke em busca dos argumentos que Kant acusa como confinadores da razão. Locke: Aos olhos de Kant, a doutrina de Locke sensualiza os fenômenos. Em que sentido? Ora, Locke inicia o livro II ou Das Idéias do Ensaio sobre o Entendimento Humano com o exemplo que será usado, na história da filosofia, para explicitar perfeitamente um empirista: “Vamos então supor que a mente é um papel em branco, vazia de todos os caracteres, sem nenhuma idéia: – Como será ela nutrida? De onde vem todo o depósito do qual o ocupado e sem limites imaginário do homem tem pintado sobre ele com uma quase infinita variedade? De onde tem ela todos os materiais da razão e do conhecimento? A isso eu respondo, em uma palavra, da EXPERIÊNCIA. Na qual todo nosso conhecimento é fundado.” Pg.117 Essa experiência que, para Locke, fornece todo o campo de ação da mente humana é, em Kant, a sensibilidade. Se Kant pudesse recomendar um estudo para Locke talvez a matemática fosse a ciência escolhida. Kant viu na matemática a ciência par excellence que fornece conhecimentos a priori da experiência, da sensibilidade. A matemática seria então a priori pois: “os critérios do a priori são o necessário e o universal. O a priori define-se como independente da experiência, mas precisamente porque a experiência nunca nos «dá» nada que seja universal e necessário”
          O que a matemática desvela com noções universais e necessárias é que há possibilidade de se pensar para além da experiência. Passamos à obra de Leibniz intitulada Os Princípios da Filosofia ou a Monadologia, Mônada é definida como substância simples, “os verdadeiros átomos da natureza”. Ademais se diz das mônadas que estas guardam diferenças qualitativas entre si, e que há mudança na mônada que decorre de um princípio interno a própria mônada. Então deve haver uma pluraridade de afecções e relações contidas na mônada, mesmo que esta se mantenha una. Percepção é definida por Leibniz exatamente como o estado passageiro de multiplicidade de uma mônada una e destas entre si: “Com isso, vê-se que se em nossas percepções não tivéssemos nada de distinto e, por assim dizer, de elevado e de um gosto mais aprimorado, só conheceríamos o atordoamento. É este o estado das Mônadas simplesmente nuas.” Pg. 133 Vemos então, que o estágio perceptivo é sempre confuso e não gerador de conhecimento. O que eleva o homem a outro estágio de conhecimento é a razão, que permite pensar o próprio Eu e Deus. Percebe-se claramente, na leitura da Monadologia, que a partir do momento que Leibniz radica a percepção a um estágio meramente confuso do conhecimento, e, portanto, algo a ser superado, inicia-se a exposição de como se dá a razão e de suas operações principais. Leibniz intelectualiza o mundo, relegando o sensível ao erro e a confusão. Na Crítica da Razão Pura lemos:
          “A filosofia de Leibniz e de Wolff indicou uma perspectiva totalmente errada a todas as investigações acerca da natureza e origem dos nossos conhecimentos, considerando apenas puramente lógica a distinção entre o sensível e o intelectual, porquanto essa diferença é, manifestamente, transcendental e não se refere tão-só à sua forma clara ou obscura, mas à origem e conteúdo desses conhecimentos.” Essa novidade conceitual de Kant, que distingue de forma transcendental a sensibilidade do entendimento é o que torna possível manter ambos os âmbitos como fundamentais para a razão humana. A sensibilidade de um lado, e o entendimento, de outro, para Kant, não devem ser hipostasiados, ou seja, não devem ser considerados absolutos para o funcionamento da razão sendo que são conceitos relativos e interdependentes.
I Crítica da Razão Pura, Fundação Calouste Gulbenkian, pg.88
II Gilles Deleuze, A filosofia crítica de Kant, Edições 70, pg. 16.
III Locke, An essay corcerning human Understanding, Edição Digital, pg. 117
IV Gilles Deleuze, A filosofia crítica de Kant, Edições 70, pg. 19
V Leibniz, Discurso de Metafísica e outros textos, Martins Fontes, pg. 131
VI Idem Ibidem, pg. 133
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