Hölderlin e Nietzsche

          Ao analisarmos os escritos de Friedrich Nietzsche vemos que Friedrich Hölderlin surge, no mínimo, como seu “poeta favorito”. Sabemos da primazia dada ao discurso poético aos olhos de Nietzsche, sua obra “máxima” Assim Falou Zaratustra é extremamente poética. Parece evidente aos olhos de Nietzsche que a poesia é uma forma de ultrapassar a metafísica clássica que busca edificar verdades universais. Em uma interessantíssima carta encontrada entre os fragmentos autobiográficos de Nietzsche, carta que os estudiosos classificam como fictícia, ou seja, poética, Nietzsche supostamente respondendo a um amigo, rebate suas críticas e recomenda a leitura de Hölderlin. Analisaremos essa carta em busca dos elementos que tornaram Friedrich Hölderlin aos olhos de Nietzsche o poeta que melhor endereçava aos alemães sinais de uma nova era, que voltava os olhos aos gregos sem perder os pés nas questões hodiernas mais agudas.

I

          Seguiremos aqui a edição americana das Selected Letters of Friedrich Nietzsche da University of Chicago, 1969, em que transcreveremos quase na íntegra, traduzida para o português por nós, a carta de Nietzsche de 19 de Outubro de 1861. Faremos nossos comentários nos momentos adequados.

          Nietzsche escreve a carta com dezessete anos de idade, quando era ainda aluno no colégio de Pforta. Apesar de fictícia, os comentadores apontam que o texto pode ter se originado de uma disputa de Nietzsche com seus amigos de colégio Deussen ou Gersdorffi:

Caro Amigo:

Pequenas observações na sua última carta sobre Hölderlin me surpreenderam grandemente, e me senti impelido a discordar de você em nome do meu poeta favorito. Eu devo repetir a você suas pesadas e mesmo injustas palavras (talvez você já tenha mudado de idéia): “Eu não entendo realmente como Hölderlin pode ser seu poeta favorito. Para mim, no mínimo, essas vagas expressões meio-locas de um atrapalhado, louco, trazem somente tristes, e às vezes, repulsivas impressões. Falas obscuras, às vezes a idéia de um lunático, violentas erupções contra a Alemanha, endeusamento do mundo pagão, naturalismo, panteísmo, politeísmo, tudo confuso – essas coisas deixaram suas marcas em seus poemas, apesar de em hábil métrica grega.” Hábil métrica grega! Meu Deus! Essa é toda a admiração que você pode oferecer? Esses poemas (ao considerá-los sozinhos) lançam-se a mais pura, a mais suscetível sensibilidade; esses poemas, a qual naturalidade e originalidade eclipsam a arte e a habilidade formal do “Platen”ii

          Já temos algo a ser dito da passagem acima. Como é uma carta fictícia é claro que o texto que Nietzsche atribui a seu interlocutor é dele próprio, Nietzsche. Então os elementos que o suposto amigo atribui a Hölderlin como pejorativamente, a saber: endeusamento do mundo pagão, naturalismo, panteísmo e politeísmo confusos; são esses os elementos que Nietzsche admira em Hölderlin. Também a confusão entre eles parece ser ótima aos olhos de Nietzsche.

          Além disso, sabemos que o escopo de obras (que nada mais são que modos de ser dos seres humanos) que influenciaram a produção de Friedrich Hölderlin foi imenso: Kant, que influenciou todo o idealismo alemão, Fichte, que Hölderlin assistiu a cursos, Schiller que Hölderlin leu As Cartas sobre a Natureza Estética do Homem. Sabe-se, também, que Hölderlin sofreu influência de Espinosa. Na cultura Grega Hölderlin viu um passado grandioso, uma cultura antiga que “acertou” seu destino; porém, todo esse caleidoscópio de influências deve fluir pela natureza do homem que, como natureza dando-se, se dá como inteira, una. Daí Hölderlin ter produzido tantos gêneros diferentes de textos, que vai da poesia ao romance e a tragédia e, finalmente, aos hinos. Ao chegar ao período trágico de sua produção, Hölderlin pensa a vida como palco de tensões infinitas (alguma semelhança a vontade de poder nietzschiana?), em que a todo o momento o nobre e o comum se misturam (aqui Nietzsche se calaria).

Voltando à carta:

“esses poemas, movendo-se com os mais sublimes ritmos da ode, desbotando nos mais delicados sons da angústia; você não pode encontrar para esses poemas melhor palavra de admiração que o superficial “hábio”? E realmente esta não é a pior injustiça. Falas obscuras, às vezes a idéia de um lunático! […] No geral você parece acreditar que ele [Hölderlin] só escreveu poemas. Então você não conhece Empédokles, esse fragmento mais dramático, no qual os tons melancólicos reverberam o futuro do poeta infeliz, sua tumba de longa loucura, e não como você diz obscuras falas, mas na mais pura linguagem sofocleana e com uma inexaustível plenitude de idéias profundas. Você também não conhece Hypérion, no qual o harmonioso movimento de sua prosa, a sublimidade e beleza dos caracteres, traz a mim a impressão do bater de uma onda no mar agitado. De fato, essa prosa é música, suaves sons derretidos interrompidos por dolorosas dissonâncias, finalmente expirando na escuridão misteriosa das canções funerais.”

          Nietzsche parece querer capturar o todo da obra de Hölderlin, contabilizar os ganhos de uma leitura com certeza muito intensa, viva. Por exemplo, a obra Hypérion que dialeticamente desdobra a natureza humana em momentos ora de plenitude ora de angústia, Nietzsche descreve brilhantemente: “suaves sons derretidos interrompidos por dolorosas dissonâncias”. Hölderlin morreu apenas um ano antes do nascimento de Nietzsche. Nada impediu que este inalasse profundamente os eflúvios emanados por aquele.

          Continua Nietzsche:

“Porém o que eu disse concerne principalmente à forma externa somente; permita-me adicionar agora poucas palavras sobre a plenitude das idéias de Hölderlin, as quais você toma como confusão e obscuridade. […](Nietzsche cita os poemas “Rückkehr in die Heimat”, “Der gefesselte Strom”, “Sonnenuntergang”, “Der blinde Sänger”, “Abendphantasie”, porém omitiremos essa passagem). Em último lugar, um série inteira de poemas é notável, no qual ele diz aos alemães verdades azedas que são, infelizmente, muito firmemente fundamentadas. No Hypérion também, ele lança afiadas e cáusticas palavras sobre o “barbarismo” alemão. Ainda essa aversão da realidade é compatível com o mais alto amor ao seu país, e esse amor Hölderlin teve em alto grau. Porém ele odiou nos alemães a mera especialidade, a incultura.”

          Encontra-se aqui outro ponto de semelhança intelectual entre Hölderlin e Nietzsche. Hölderlin identificou o niilismo reinante em sua época, se fossemos falar com o jargão de Adorno e Horkheimer, Hölderlin viu o esclarecimento enclausurador, a razão instrumental fechando todos os poderes extra-racionais do homem. Nietzsche levou ao limite essas críticas e isso permeia toda sua obra. Em Nietzsche parece haver duas vias fundamentais de ação interdependentes: a primeira destrutiva em relação às idéias enraizadas na cultura de sua época e a segunda criativa, positiva, que via no além-do-homem a realização plena das potencialidades humanas. Claro que isto está ainda em germinação no Nietzsche que vemos nessa carta, apenas com dezessete anos.

Voltando à carta:

“Na tragédia incompleta Empédocles, o poeta desvela sua própria natureza a nós. A morte de Empédocles é uma morte de orgulho divino, do desdenho do homem, do estar satisfeito com a terra, e do panteísmo. Toda vez que a leio [a tragédia], o trabalho inteiro sempre me move profundamente; há uma divina profundidade nesse Empédocles. No Hypérion, de outro modo, ele também parece banhar no brilho transfigurado, todo seu descontentamento e incompletude; os caracteres os quais o poeta conjura são “imagens arejadas, as quais ressoam envolta de nós, nostalgia que desperta, que nos contenta, mas também estimulantes saudades insatisfeitas”. Porém em nenhum lugar a saudades da Grécia se revelou em tons mais puros; em nenhum lugar, também, o parentesco da alma de Hölderlin, Schiller, e Hegel, seu amigo intimo, é mais simples de se ver.”

          Na tragédia Empédocles, Hölderlin inicia colocando as coisas concernentes ao homem além de suas próprias capacidades, no alemão a palavra que traduz a estratégia literária é Übermass, uma extravagância, um exagero. Há uma busca de ultrapassar a contingência da vida humana, e isso tem como alvo exprimir o puro, no limite inexprimível. A natureza humana está sendo, neste momento, pensada por Hölderlin como conflito. O homem está cindido do todo. A tragédia busca exprimir a realidade intuída pelo poeta por oposição.

          Nietzsche cita a Grécia de Hölderlin como a que atingiu “tons mais puros”. Sabemos da força da Hélade na obra de Nietzsche, que via que os gregos davam ótimas imagens de “tudo quanto há de mais terrível, maligno, enigmático, aniquilador e fatídico no fundo da existência”[i]. Na Alemanha, Johann Joachim Winckelmann foi responsável por verdadeiro paradigma intelectual de releitura da cultura grega clássica. Na sua esteira poetas como Goethe e Schiller buscaram apreender os modelos culturais gregos. Em Hölderlin a Grécia permeia toda sua produção como ideal cultural passado, porém vivo historicamente.

          Nietzsche finaliza a carta em tom irônico se referindo ao suposto amigo que desqualificara a obra de Hölderlin:

“Tive a possibilidade de tocar em tudo muito rapidamente essa vez, porém devo deixá-lo, caro amigo, a juntar os pedaços de uma imagem de um poeta infeliz a partir das características que indiquei. Que eu não desaprovo as acusações que você fez considerando suas [as de Hölderlin] opções religiosas contraditórias, isso você deve relacionar a minha filosofia de tocar em tudo rapidamente, que demanda um alto grau de consideração daquele fenômeno. Talvez um dia você tenha o problema de examinar esse ponto mais detidamente e, ao iluminá-lo, espalhará alguma luz nas causas do seu colapso, o qual obviamente deve ter suas raízes somente nisso.

Você certamente me perdoará por usar várias palavras pesadas contra você, em meu entusiasmo; Eu somente espero – e considero o propósito da minha carta – que ela te moverá a um entendimento e uma avaliação não pré-julgada desse poeta, o qual o nome é dificilmente conhecimento na maioria dos seus compatriotas.

Seu Amigo, F. W. Nietzsche”

          A obra de Hölderlin, por sua amplitude, vivacidade e contemporaneidade é um grande privilégio para quem possa dispor do tempo suficiente para lê-la, relê-la, digeri-la, vivê-la. Sua importância histórica é indiscutível, suas tentativas ostensivas de produção e desvelamento das potencialidades da natureza humana garantem a fluidez necessária de toda obra poética, que escapa categoricamente à metafísica essencialista e ao mesmo tempo engendra os mitos xamânicos que serão eternamente entoados.


[i] Selected Letters of Friedrich Nietzsche, Edited by Christopher Middleton, The University of Chicago, 1996 in. Letter to my friend, in which I recommend that he read my favorite poet.

[ii] Nos dicionários, a definição mais encontrada é: “The part of a printing press which presses the paper against the type and by which the impression is made.” Aqui, talvez tenha o conteúdo semântico de modelo, ideal.

[iii] Nietzsche. Tentativa de autocrítica, § 4. Nietzsche. O nascimento da tragédia, p. 17

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