Hegel – atualíssimo

          Buscamos investigar as origens da noção de especulativo, em Hegel, que de certa forma será fundamental para toda sua obra e, principalmente para a lógica. Veremos que a lógica de Hegel se move no âmbito do especulativo. Finalizaremos ao ver em que medida a noção de conceito aponta para um lugar onde todas as dualidades da metafísica clássica se encontram superadas dialeticamente. Para esse percurso, analisaremos as primeiras páginas do Diferenzschrift e posteriormente trechos da Enciclopédia das Ciências Filosóficas e da Ciência da Lógica de Hegel.

          Kant já apontava para o especulativo, como veremos. Mas Hegel diz que o especulativo é o espírito, não a letra do sistema kantiano. O princípio da especulação é a identidade do sujeito e do objeto. Enquanto Fichte resolve a cisão entre estas categorias englobando-as no âmbito da consciência, ou seja, do eu, Schelling pensa na cisão a partir de sua objetividade, atribuindo à díade sujeito-objeto uma objetividade absoluta, de acordo com sua filosofia da natureza.

          A necessidade de Hegel resolver a cisão emana de sua compreensão que a razão humana se conforma com a natureza, as instâncias subjetivas e objetivas são, portanto, intrínsecas. Para capturar a necessidade de uma síntese da cisão, Hegel recorre à história da filosofia. Os diferentes sistemas filosóficos são analisados de um ponto de vista histórico. Hegel parte do princípio que qualquer filosofia sempre é contingente, está imersa num momento histórico pontual. Porém a história da filosofia, mesmo que contingencial, pode revelar uma coesão interna fundamental para se alcançar concepções alargadas sobre o homem e seu entorno.

          Hegel atribui a Heinhold a pressuposição que vê a filosofia como um trabalho técnico, passível, portanto, de melhoramentos, de onde decorreria a importância e necessidade de se conhecer a história da filosofia como um arcabouço das antigas tentativas de resolução dos problemas filosóficos. Hegel, entretanto, expõe sua visão de uma filosofia única. Qualquer manifestação da razão humana, que atendendo aos dizeres oraculares gregos, buscou conhecer a si mesma teria efetivamente produzido uma filosofia autêntica. No próprio movimento do texto percebe-se que Hegel pretende subsumir a atividade particular num universal histórico, ou no âmbito de uma única racionalidade. Isso aponta para o especulativo de Hegel, instância fundamental de sua filosofia, que permeará quase toda sua produção posterior.

          O especulativo remete, como dissemos, para uma zona “desmilitarizada” entre os âmbitos subjetivo e objetivo. Ademais, a especulação é um momento cultural, no qual a razão humana universal não concernida em erigir peculiaridades, se volta sobre si mesma. Podemos pensar a futura lógica hegeliana como a realização desse esse exato ponto na história, no qual o pensamento humano volta-se para pensar a si mesmo, porém já tendo superada a cisão ab initio. Uma verdadeira filosofia revela o momento cultural da humanidade sem extinguir de todo o elemento particular, subjetivo, que a engendra.

          Hegel vê na própria cisão entre sujeito e objeto, a necessidade da filosofia. O absoluto, ou a razão universal, impulsiona cada particular rumo a um aprimoramento. Atingir o absoluto, no limite, seria se livrar completamente das particularidades. Nesse ponto do artigo, Hegel nota que a história da filosofia estabeleceu inúmeras oposições: forma e matéria, alma e corpo, razão e sensibilidade e sujeito e objeto, esta última englobando todas as outras. Essas concepções contrastantes, diz Hegel, são etapas necessárias do pensamento humano. A busca por superação só se estabelece onde há cisão originária.

          Mas resolver os contrastes, principalmente a dicotomia sujeito-objeto, é reconhecer que tanto o mundo real quando o intelectual estão em devir, nunca sendo possível se manter na fixidez da oposição. As oposições se apaziguam no seu contínuo devir. Do ponto de vista das cisões, uma possível síntese é um além, uma superação, pois de alguma forma a cultura humana segue um curso rumo ao absoluto; identifica-se então uma teleologia em Hegel, nesse ponto. O absoluto é, então, o que se procura com a filosofia. Mas para que isso se estabeleça é necessário que o absoluto já exista efetivamente. A razão humana atinge o absoluto, pois a consciência, a história desta é prova, pode livrar-se de suas próprias limitações.

          Com essa breve análise, que compreendeu a primeira dezena de páginas do Diferenzschrift de Hegel, esperamos ter compreendido como o autor pensa o elemento especulativo. Dotados disso, avançaremos para o projeto da lógica de Hegel, que é realização do puro pensar sobre si mesmo, onde puro remete para um terreno de não-cisão entre subjetividade e objetividade ou da afirmação da infinitude do pensamento que não está mais atado à esfera da subjetividade.

          A filosofia de Kant é o principal horizonte teórico que Hegel pretende renovar e aprofundar, com sua lógica. Tentemos então refazer brevemente as etapas da lógica de Kant, a lógica transcendental, para encontrar onde repousa a diferença fundamental para com a lógica de Hegel.

          Kant, no início da Crítica da Razão Pura, distingue dois momentos da lógica transcendental: a analítica e a dialética. Na primeira deduz as categorias, por exemplo, a de negação ou existência, de acordo com condições a priori do pensar. Na dialética transcendental Kant busca limitar os usos especulativos da razão, que ultrapassaria seus próprios limites e, por conseguinte, esbarraria nas antinomias.

          Mas qual a grande diferença desse esquema de Kant para com o de Hegel? Este habilita plenamente, na sua lógica, a dialética transcendental de Kant e as antinomias da razão. Estas são etapas “naturais”, necessárias, da razão que tem como meta do seu obrar histórico uma ideia. Esta ideia é a própria apreensão da realidade intermediada pela linguagem, ou seja, é o conceito, e é também a própria realidade. As categorias pretensamente fixadas na analítica transcendental de Kant não estão prontas, e sim são determinadas diferentemente em cada momento histórico. Aqui vemos delineada a lógica hegeliana. Num limite da lógica está a subjetividade, notória através do conceito, no outro está o próprio ser e tudo isso se passa na historicidade. Podemos arriscar que Hegel concebe sua lógica, então, como uma lógica e uma metafísica ou uma ontologia, pois entende que os conceitos fundamentais do pensamento são idênticos em sua estrutura lógica às determinações do ser. Portanto, dialeticamente o pensamento está e não está nas coisas do mundo.

          No conjunto das obras de Hegel a Fenomenologia do Espírito é considerada pelo próprio autor como a que consuma a superação da cisão originária entre subjetividade e objetividade. A Fenomenologia do Espírito aponta para o saber absoluto, que é a realização da não-cisão e o lugar onde desponta a verdade. Na Divisão Geral da Lógica contida na obra Ciência da Lógica Hegel indica que a lógica começa no momento em que as instâncias do conceito (subjetivo) e ser (objetivo) estão imbricadas uma na outra. Hegel propõe como método de exposição uma divisão apenas epistemológica entre uma lógica objetiva, que falasse do ser e por isso seria uma redescrição da metafísica clássica, e uma lógica subjetiva no qual a noção de conceito seria o cerne. Mas é necessária como mediadora entre essa lógica objetiva e a subjetiva, a doutrina da essência que revela o ser que passa para o ser em si do conceito, mas que ainda não pode ser posto como conceito por estar atado ao ser como tal.

          Elemento necessário para a lógica, diz Hegel, é a linguagem. É por esta que o representado é captado pelo homem. A linguagem é fixadora do elemento lógico. Este depende da linguagem. Na linguagem escrita e na própria naturalidade da linguagem comum, já se insinua o especulativo e, portanto, o elemento lógico. A linguagem é o meio para o pensamento pensar a si mesmo.

          Mas voltemo-nos à noção de conceito, tal como a entende Hegel. Na doutrina do conceito, terceira parte da Ciência da Lógica, Hegel inicia enumerando três propriedades do conceito: este é livre, é totalidade e o conceito é por e em si mesmo determinado. Ademais o conceito seria o princípio de toda a vida e então o que é pensado como concreto. Hegel pensa que o conceito encerra e contém todas as dicotomias da metafísica clássica, por exemplo, a de forma e conteúdo. Nas palavras de Hegel: “Certamente o conceito deve ser considerado como uma forma, mas é uma forma que é infinita e criativa, uma de ambas encerram a plenitude de todo conteúdo dentro de si mesmo”

          Fica claro, com isso, que a noção de conceito, na lógica de Hegel, é a própria concatenação do especulativo, que acompanha Hegel desde a juventude. O conceito, tal como pensa Hegel, é também o que é pensado como concreto. Pois conceito abarca as categorias de Ser e de Essência numa unidade ideal. Por isso Hegel chega a dizer que o conceito é o Absoluto Idealismo. Conceito é alguma coisa de diferenças na unidade e unidade nas diferenças.

          Mas pensar, para Hegel, desde o tempo do Diferenzschrift é basicamente negativo. Pois Hegel pensa que há uma afirmação do pensamento na medida em que este nega. O que se nega? Nega-se a fixidez das categorias clássicas, como Ser, Forma etc. Ao negá-los são encontrados seus antípodas, Nada, Conteúdo, etc. A noção de conceito dá unidade a estas relações contrastantes do pensar. Conceito é uma positividade que abarca as categorias fundamentais da metafísica e suas respectivas negações. O conceito sinaliza para o elemento Universal, o particular e o singular que estão numa relação infinita. Já vimos que Hegel coloca a doutrina do conceito como uma atividade essencialmente subjetiva, decorre daí que no conceito há sempre traços particularistas.

          Mas o conceito não é algo historicamente acabado. Cada época histórica “imprime” sua visão de mundo de forma conceitual. Cada vida humana, ao nascer, já está em contato com os conceitos de sua época, que de alguma forma estão entalhados na sua constituição. Mas também há atividade de cada subjetividade, que Hegel chama de julgamento. Dessa relação entre conceitos herdados da cultura e julgamentos subjetivos, Hegel vê a possibilidade da liberdade, pois há necessidade e causalidade, respectivamente.

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