A Arte de Heidegger

Pretendemos analisar o percurso do texto de Martin Heidegger, A Origem da Obra de Arte. Veremos que Heidegger inicialmente utilizará da história da filosofia para alcançar compreender o que a obra de arte não é. Se isso for bem sucedido, Heidegger pensa que a essência da obra vai ser alcançada como o colocar-se da verdade. O artigo traduzido para o português é composto por três partes, que manteremos na nossa interpretação.

  1. Prefácio e A Coisa e a Obra

A origem da obra de arte remete à sua essência, esta deve ser procurada na própria arte, e também no artista que a elabora. A primeira característica fundamental à obra de arte aponta Heidegger, é a coisidade da obra. Sua necessidade de ontologicamente existir encerrada numa materialidade. A arte também aponta para outro, há uma alteridade constitutiva da obra, que é sempre uma alegoria, um símbolo.

Vemos Heidegger realizar uma assepsia do vocabulário latino que enfraquece o pensamento, pois captar a essência de algo é deixá-la acontecer sem intermediários. Heidegger faz uma distinção entre três tipos de entes: o ser coisa, o ser instrumento e o ser obra. Sobre estes entes há três interpretações daquilo que eles não são: eles não são meros suportes de propriedades, não são uma pluralidade de impressões e não são simplesmente a matéria informada. O conhecimento da história da filosofia faz-se necessário, então, para que se possa livrar-se dos preconceitos e obstáculos há muito enraizados no pensar de todos.

Entre os três entes classificados anteriormente, Heidegger aponta que dois deles são irmanados, pois devem passar pelas mãos do homem. São eles o ser obra (de arte) e o ser instrumento. Este será primeiramente analisado no texto. Heidegger busca a essência do ser instrumento pela obra de um par de sapatos de Van Gogh. Do quadro pode-se imaginar todo o dia-a-dia do camponês que o usa. Pode-se imaginar todo o seu mundo. Aparece pela primeira vez o termo mundo, que será oposto a Terra, que veremos a seguir. Heidegger aponta que o quadro de Van Gogh oferece uma abertura para um ente, porém lembremos que este ente é um instrumento. Nessa abertura vê-se a essência do que é instrumento para o homem: há uma confiança na utilidade do instrumento, confiança notável pelo longo uso que se revela no quadro. A essência do instrumento é então o ser de confiança que ele encerra.

Resumindo até aqui: perguntar sobre a essência da obra de arte faz Heidegger se indagar pela coisidade da coisa que é alcançada partindo da essência do instrumento que é um ente intermediário entre a coisa mesma e a obra de arte. Mas descobriu-se a essência do instrumento se servindo do quadro de Van Gogh que mostra um par de sapatos. A arte é abertura, é a alethéia grega, mal traduzida pela verdade contemporânea. Traz a tona algo oculto. Somente pela arte foi possível atingir a essência do instrumento.

Heidegger então atribui à arte a capacidade extremamente nobre de revelar uma clareira do ser do ente. Em outras palavras a arte desencadeia e mostra algo que nunca antes foi visto. Nisso reside seu poder, o de estranhar toda ordem pré-estabelecida. Podemos mesmo atribuir à arte um acesso a um inesgotável poço de renovação, que se alastra por toda cultura de maneira inexorável. Mas a arte não tem a ver apenas com beleza, a arte faz aparecer o belo e o não-belo. A arte também não é cópia do real, nem de um objeto específico, nem de uma suposta universalidade capturável pela obra. A verdade como desvelamento aparece na obra sem nenhuma necessidade de adequação da obra com o seu entorno. A obra também não é um instrumento que de alguma forma passa a ser analisado apenas esteticamente.

  1. A Obra e a Verdade

A origem da obra de arte, ou seja, sua essência, não é algo alheio à própria arte. A essência da arte é a própria arte. Pensar a obra de arte é pensar e ver com calma e a paciência, para que a arte possa se apresentar a nós sem os pré-juízos de esquemas e teoria que imputamos a priori na arte.

Na grande arte o artista é subsumido pela sua arte, que se mostra como uma visão de mundo, porém exatamente quando isso se dá, é que a personalidade do autor se torna altamente relevante à história da humanidade.

Ao retirar uma obra de seu entorno original, por exemplo, a obra de Salvador Dalí sendo apresentada ao público paulista no ano de 2010, há uma destruição do mundo da obra, nota Heidegger. Podemos naturalizar a explicação e mutatis mutandis pensar a obra como um organismo em seu ecossistema ou, mais especificamente, em seu nicho ecológico. Se removermos dali esse indivíduo ou retirarmos parte do seu entorno, sem dúvida, ele necessitará se readaptar se puder. Ouve-se frequentemente que “um dano causado a um ecossistema é irreversível”, assim também com a obra de arte, que ao ser destituída de seu mundo sofrerá um dano irreversível. Entretanto, e isso é patente nas obras de arte, elas conservam fragmentos de sua abertura, seu mundo, que continuarão presentes no seu ser-obra em qualquer momento histórico. Isso porque a obra é essencialmente um momento da verdade como desocultamento de um ente.

O autor passa então à análise do templo grego. Os gregos, ao criar um templo, significaram ali seu Deus, não só, é no templo que o Deus ou deuses gregos se presentificam. O templo determina em seus limites todo um conjunto de crenças e desejos da cultura, talvez no sentido amplo que os gregos davam a cultura, ou seja, como Paideia. Ademais se pode notar no templo as pedras que ali repousam, seu brilho, seu silêncio. A natureza está contida no templo, no sentido dos gregos, natureza como physis. Onde a cultura e a Paideia se relacionam com o Mundo a physis exprime a Terra. Conceitos estes forjados por Heidegger para apreender a obra de arte no seu todo, que é a tensão contínua entre os opostos Terra e Mundo. Notemos quão perto Heidegger está de Heráclito: “O combate é o pai de todas as coisas, de todas as coisas é o rei. A uns ele faz aparecer como deuses, a outros como homens, de uns ele faz escravos, de outros, seres livres”1.

A obra apresenta um mundo, pois este é o próprio devir das obras humanas na história. O homem cria mundaneidade, pois assiste e se move dentro do desvelar do Ser, permanecendo sob sua luz. Heidegger está pensando, nesse ponto, sem dúvida, no eidós grego, condição necessária para o pensamento. A obra consagra a matéria-prima, pois esta constituirá parte do mundo humano, que se dá na obra e pela obra, e remeterá também à fonte de toda matéria, a Terra. “Quando apresenta um mundo, a obra produz (revela) a Terra”2.

A seguir Heidegger, a nosso ver, reafirma a contingência humana perante a Terra. Quando buscamos apreender o Ser do ente em um dos seus aspectos, vários outros escapam pelos vãos de nossos dedos. Heidegger chega, mesmo, em uma versão cultural do princípio da incerteza de Heisenberg. É impossível captar simultaneamente todas as facetas de um ente, pois a Terra “recolhe” seu ser desvelado que se mantém retraído. É nesse sentido que a arte desvela a Terra. Como dissemos a obra de arte é o próprio movimento contínuo entre opostos que nunca se realizam: a Terra retrair todo o mundo no seu esconder-se ou o mundo, na sua efetividade de destino histórico da humanidade, dominar completamente a Terra. A obra de arte mesmo que instaura o confronto entre o mundo e Terra, que nunca cessa.

Heidegger procede numa crítica da verdade como adequação entre conhecimento e coisa. Já observamos esse “método” de assepsia heideggeriano que tem pretensão de abrir caminho para a própria coisa que se analisa. A verdade como adequação nem seria possível se uma primeira abertura não se desse.

Mantendo-se na vizinhança do pensamento de Heráclito: “A natureza tende a esconder-se”3, Heidegger pensa que há uma dupla ocultação do ente: este pode aparecer dissimulado ou pode nem mesmo aparecer. A verdade é essa ação de aparição de um ente. Para que a verdade ocorra é necessária a ocultação. A essência da verdade é esse jogo em que se oculta e se aparece, e este aparecer pode ser dissimulado, pelo bem da reserva. Isso remete, novamente, a oposição Terra/Mundo. Enquanto a Terra se abre em possibilidades infinitas para fechar-se sobre si, Mundo é tudo aquilo que significa a vida humana imersa na história. Porém Heidegger nos diz que a verdade não acontece de maneira cotidiana. Um dos modos do acontecer da verdade é na obra de arte. Na arte há desocultação do ente, uma clareira que surge a partir do confronto de Terra e Mundo. Existe uma relação, então, entre o acontecimento da verdade e a essência da criação artística.

  1. A Verdade e a Arte e Epílogo

A obra de arte precisa ser criada, produzida. Essa criação é a atividade do artista. Os gregos usavam a palavra techné como um saber, algo que efetivamente produz o ente, retirando-o da desocultação e, por conseguinte tornando-o presente. Esse processo se dá na natureza, na physis. Heidegger reconduz, no texto, a análise para a verdade. Esta se institui naquele combate contínuo entre luz e reserva, respectivamente, Mundo e Terra. Há dois momentos essenciais do acontecer da verdade: uma luz que torna inteligível e um instituir-se nessa luz de algo.

A ciência, para Heidegger, não participa do acontecimento da verdade, pois não há o primeiro momento essencial. A ciência apenas institui algo numa região de luz já aberta, iluminada. A verdade como alethéia é, a própria iluminação de outras regiões do Ser, novos horizontes iluminados. A argumentação de Heidegger nos faz pensar se a ciência hoje pode descobrir novas regiões do Ser ou está fadada a se mover contingencialmente dentro de seu círculo limitado.

A obra de arte é a produção do que nunca foi e não será novamente jamais. Nunca foi, pois seu ato retira da Terra algo ocultado. Não será novamente, pois é produto da concepção de mundo dos homens daquele momento histórico e nunca de outro. Sendo assim a obra de arte é um acontecimento em que a verdade em seu duplo movimento de iluminar e instituir algo se dá.

Como combatentes originários Terra e Mundo são interdependentes. Desse combate surge algo que contém uma forma que é separada pelo traço e permanece como ser criado, o que remete novamente ao combate originário. Aqui vemos operar, como em vários outros momentos do texto, o que a historiografia chama de círculo hermenêutico, no qual parte-se e volta-se ao mesmo ponto, porém novos elementos são agregados, nesse caso o conceito de forma e traço. A instituição da verdade se dá na forma.

Aquilo que é criado para ser instrumento se perde na própria utilidade desse ente, ao contrário a obra de arte repousa em si mesma como aquilo que é enquanto tal, e não para servir a algo. O significado da obra de arte reside extraordinariamente no: “que ela seja”4. A obra de arte estabelece um conjunto de significações totalmente novas, que repele qualquer pré-julgamento do homem, que vive uma experiência extraordinária. Heidegger nomeia essa ação da obra como a guarda. A arte exige que nos coloquemos, pacientemente, na abertura por ela fundada. Os homens são guardiões que possibilitam à obra se tornar realmente obra. Daí vemos mais um caráter essencial da obra de arte: a necessidade de contempladores.

A coisidade da obra não se põe mais, pois para pensar a coisidade fazemos a partir de uma base subjetiva que necessariamente coloca um objeto a sua frente para seu deleite estético. A coisidade da obra é o que remete à Terra.

A arte é poesia no sentido que é essência da arte que nela aconteça a verdade e também é essencial a ela seus contempladores. Além disso, é impossível, diz Heidegger que aconteça abertura do ente não-linguístico. Por conseguinte, a linguagem é essencialmente poética.

Finalizando o artigo Heidegger pensa que a obra de arte anula todo o corriqueiro e o que já ocorreu. A obra é totalmente extraordinária quando comparada com a conjuntura na qual nasce. Daí Heidegger afirmar que a base da obra é o Nada. Pois não há nada na cotidianidade de uma arte que é necessário para sua criação. A obra é projeto lançado rumo aos novos grupos históricos humanos. A arte abala a história. Pode elevar um povo ao sucesso de sua missão histórica. Ou pode descortinar sua ruína. Nesse sentido a arte é histórica, pois a arte funda a história.

No epílogo Heidegger diz não ter a pretensão de resolver o enigma da arte. Basta vê-lo. Heidegger lega-nos uma pergunta atualíssima: “A arte é ainda um modo essencial e necessário da verdade que decide sobre o nosso Dasein histórico, ou a arte não é mais isso?”5.

1 HEIDEGGER, Martin – A Origem da Obra de Arte- Kriterion, 79/80 – pg.231.
2 Idem Ibidem, pg. 234.
3 Fragmento B123 de Heráclito que a Tradutora para o português nota implicitamente no texto heideggeriano.
4 HEIDEGGER, Martin – A Origem da Obra de Arte- Kriterion , 86– pg.121.
5 HEIDEGGER, Martin – A Origem da Obra de Arte- Kriterion , 86– pg.132. 

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Um comentário em “A Arte de Heidegger

  1. Não entendi nada :/

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